CORAÇÕES PERTURBADOS
Cap. 8
A situação parecia estar perdendo o controle para o jovem casal. De um lado estava Gustavo, com uma carreira promissora devido ao seu desempenho no hospital, mas por uma certa dose de ironia do destino, correndo sérios riscos de ser preso. Caso este que ninguém sabia como explicar, digo, até sabiam, mas queriam que tudo permanecesse desta maneira. Assim a escusa organização permaneceria inalterada, sem muitos transtornos ou problemas sem soluções. Perfeito para quem planejava um fim triunfal para a máfia. E de outro lado estava Gláucia, uma adorável moça e seu filho que caíram nos encantos de uma pessoa pra lá de complicada. Além de ter um imã natural para encrencas do tipo insolúveis.
Enquanto isso, uma pessoa que trabalhava no hospital desde o início das atividades... clínicas, obviamente, observava tudo no mais completo silêncio e discrição. Doutor Horácio era tido como lunático, porém, como era bom profissional, exímio descobridor e estudioso de patologias do tipo bacteriana e viral, mantinham-no na instituição.
Sempre silencioso, talvez por hábito de trabalhar com seres que vivem calados, circulava pelos corredores livremente como se fosse um fantasma. Dificilmente percebiam a presença desta pessoa por lá. Aliás, ele até se parecia com um fantasma, era branco feito um jaleco, pois não gostava de sol. E além de sol não gostava de pessoas também. Sempre foi difícil o relacionamento com seres da mesma espécie. Entre um convite para festar com colegas de profissão ou ficar em alguma sala de pesquisa, preferia ficar pesquisando. Seja lá o que fosse. Concluindo a descrição, ficava fechado o dia inteiro no hospital. Só saía para ir embora para casa. E quando saía não se despedia de ninguém.
No entanto, apesar de toda esta esquisitice, era a única pessoa que poderia ajudar Gustavo de fato. Mas, como não gostava de se relacionar com humanos, a probabilidade de sua balança pender para lado dos justos seria quase nula. Assim como pender para qualquer lado, pois em qualquer situação, tanto a dos justos quanto dos injustos, lhe causava verdadeira ojeriza. Isto pelo simples fato de não gostar de pessoas. Por outro lado, sua noção de certo e errado era bem definida, e pensava que ninguém, mesmo aqueles de quem não gostava, ou seja, todos, deveria receber um castigo sem merecimento.
Com este pensamento tentou de várias maneiras burlar seu asco que tem das pessoas e contar tudo o que sabia e os motivos daquilo que estava acontecendo a Gustavo. Porém a dificuldade era tamanha que todas as vezes que encontrava o rapaz pelos corredores Dr. Horácio se encolhia nas paredes de tal maneira que parecia até uma sombra que agia por conta própria. E suas maneiras inexpressivas de aproximações junto a outros seres da mesma espécie faziam jus à sua insignificante vontade de fazer amizades.
Por outro lado toda aquela encenação enfadonha de aproximação chamou a atenção de Gustavo que, tomou iniciativa e foi de encontro do doutor. Aquilo foi uma experiência um tanto quanto claustrofóbica para um, e estranha para outro, e ao mesmo tempo curiosa para ambos, pois o rapaz gostaria de saber por que estava acontecendo aquilo tudo. O jovem sabia que o "senhor bactéria", alcunha esta que o velho profissional recebeu há muito tempo no hospital, e era assim que todos dos que lá trabalhavam o conheciam, detestava se relacionar com pessoas. E mesmo não gostando de humanos se esgueirava pelas paredes buscando, sem sucesso, um confronto com um desses espécimes que ele odeia. Já vendo pelo lado de Dr. Horácio, que realmente não gostava de ninguém além daqueles seres diminutos que só se consegue ver através de microscópios, tal aproximação teve o impacto de um choque de 220 volts em uma criança: inesperado, intimidador, terrificante e traumatizante.
Contudo, apesar do tamanho do susto, e mesmo querendo sair às pressas dali, ficou. Porém a falta de tato com os outros impediu de se expressar adequadamente. As palavras saiam de sua boca de maneira trêmula e com pouco sentido, tanto para ele próprio como para Gustavo, ou para quem quer que fosse. Garantiam seus colegas, em particular, claro, que se ele não fosse um ótimo profissional já estaria internado em algum sanatório.
Alguns enfermeiros ainda arriscavam em dizer que o velho Horácio era um sujeito que detinha muitos segredos, e todos eles muito estranhos e perigosos. Coisas foram ditas anos atrás. Coisas que ninguém podia confirmar, e que pessoas foram chegaram a ser demitidas por tentarem se aprofundar em tais assuntos. Mas o boato era que o doutor desenvolvia a cura de muitas doenças. Doenças estas que ele mesmo criava enquanto seus colegas saiam para se divertir.
Quanto a esses boatos dificilmente alguém saberia, mas que a atitude do doutor estava estranha ninguém podia ter dúvidas disto, até mais que o comum, pois ele parecia tentar uma aproximação, e este era o tipo de pensamento que normalmente não teria. Pelo menos enquanto estivesse vivo. Radicalismo à parte, era assim mesmo que gostava de falar. Aliás, era a única coisa que falava para os outros, e fazia questão de deixar bem claro para os todos do hospital quanto ao seu estilo de relacionamento. Sua preferência era se isolar do mundo normal. Como foi dito há pouco; se não fosse um bom profissional já estaria internado em algum sanatório.
postado por Oiram Bourges Quarta-feira, Agosto 23, 2006
CORAÇÕES PERTURBADOS
Cap. 7
Após quase um dia de viagem eles chegaram à cidade na qual Gustavo estava morando. E através do endereço e de um mapa mal traçado feito em um pequeno pedaço de papel que Gláucia mesma desenhou, por intermédio do rapaz logicamente, chegaram ao hospital. Ela e o filho resolveram então verificar como estava a situação local, pois imaginavam fazer uma grande fuga de lá. E não estavam dispostos a pensar nas conseqüências, pois imaginavam que tudo aquilo era alguma armação, e sendo uma armação logo encontrariam o verdadeiro, ou, os verdadeiros culpados de tudo que estava acontecendo.
Instintivamente ela estava certa, mas os tais planos de fuga não eram bem planejados. Portanto não sabiam o que fazer depois que saíssem da cidade. A única certeza que tinham era de sair com Gustavo de toda aquela confusão para algum lugar. Sendo assim fez os cálculos, ou pelo menos simulou situações de horários de consultas que o rapaz estivesse fazendo aos pacientes e resolveu, junto com Jonas, entrar no hospital para tentar encontrá-lo. Mas para que desse certo realmente, seria preciso perguntar à atendente da portaria sobre os médicos que atendiam naquele momento. Precisaria inventar uma boa desculpa para descobrir em que setor seu amante estava atendendo.
Digo que a desculpa precisaria ser boa para encontrá-lo, por que Gustavo, de certa forma, estava sendo vigiado pelos seguranças e funcionários que faziam, também, parte do esquema do qual o rapaz estava envolvido. Então tudo teria de ser feito sem despertar suspeitas, caso contrário as coisas poderiam dar erradas. Gláucia, na verdade, não sabia direito o que estava fazendo ali, naquele local. Estava muito nervosa para pensar nas situações em que havia se envolvido. Situações estas de grande risco. Porém, Jonas, com sua mente aberta e inventiva de criança esperta, e ainda baseando-se em filmes e seriados de aventura que tanto gostava, aliando tudo isso às histórias policiais que lia em alguns livros, criou situações para sua mãe executar. Mesmo sem saber se daria certo.
Mas para crianças as coisas sempre dão certo. Pelo menos nos pensamentos delas. Se bem que a esta altura dos fatos até adultos passam a acreditar nas coisas. Por mais difíceis que pareçam ser. Até por que toda esta ação requeria frieza nos nervos, pois qualquer vacilo emocional poderia por tudo a perder. Então seria preciso acreditar nos instintos e nos pensamentos, por mais malucos que fossem. Principalmente quando a vida da pessoa que se tem amor está em jogo. Assim sendo, não daria para acreditar na frieza de Gláucia por que os nervos dela estavam enfraquecidos de tanta emoção. Contudo, todas as ações já tinham sido estudadas... Por Jonas, claro, e poderiam ser postas em práticas assim que o menino resolvesse, pois Gláucia só tinha uma coisa em mente: sair com Gustavo a todo custo.
De repente Jonas viu uma das portas do corredor onde eles estavam se abrir, e de lá saiu um casal de idosos um pouco abatidos, talvez com o resultado dos exames que um deles tinha feito. Então Gustavo os acompanhou até a porta e deu-lhes um pouco de alento com palavras de incentivo e ânimo, dizendo que seria preciso um pouco de persistência no tratamento do problema. E que se tomasse os medicamentos, respeitando os horários e o prazo correto acabaria tudo bem. Estas palavras soaram como música nos ouvidos do casal, pois até então pareciam preocupados.
Talvez até fosse o caso de preocupação, que a doença merecesse cuidados especiais ou sei lá mais o quê, mas o fato, realmente, era que tanto Jonas quanto Gláucia estavam ocupando suas mentes com coisas mais importantes, como tirar o rapaz daquele lugar o quanto antes, por exemplo. E a deixa para mãe e filho agirem era justamente aquela, tapearam a atendente que ficava no começo do corredor com uma desculpa qualquer e partiram em direção ao jovem médico.
Gustavo ao ver Gláucia e Jonas parecia não acreditar, aquilo parecia tão insólito e ao mesmo tempo tão agradável que ele quase perdeu o controle de suas emoções. A moça que estava pra lá de empolgada com a situação procurou se controlar ao máximo. O momento não era para tais demonstrações de carinho ou qualquer outro sentimento que não fosse o já conhecido que médicos e pacientes costumam usar. Primeiro por que Gustavo tinha uma namorada, ainda que não gostasse o suficiente para contrair matrimônio, e segundo pelo fato de que Gláucia e seu filho estavam imaginando um monte de coisas até sem sentido. Mas para ela tinha algo de errado em toda aquela situação. Ela, por intermédio do filho, suspeitava de todos naquele local. Incluindo aí nesta lista de funcionários os faxineiros, pois como ninguém costuma dar atenção a essas pessoas da limpeza poderia muito bem servir de engodo, e assim tapear as mentes distraídas.
Desconfianças em excesso e loucuras à parte, até que tinha um fundo de verdade nestes pensamentos. Mas sabendo que o rapaz a taxaria de maluca por isto, não demonstrou a real maneira que gostaria de cumprimentá-lo. Contudo, a moça da recepção percebeu algo de diferente entre eles e foi averiguar, pois ainda continuavam pelo lado de fora da porta. Gustavo estranhou a atitude da recepcionista por ter ido até eles perguntar por que o médico não estava atendendo os dois ali no lado de fora do consultório, e sendo que eles não tinham horário marcado para uma consulta.
Indignado com a situação respondeu de maneira até um pouco ríspida a esta pergunta descabida dizendo ele estava apenas sanando as dúvidas que a mãe estava tendo sobre o mal-estar de seu filho. Apesar de parecer grosseiro foi a única forma que encontrou para poder conversar mais tranqüilamente com Gláucia. Mas assim mesmo não poderia conversar muito mais tranqüilo do que já estava, pois quase todos daquele lugar o estavam vigiando. Inconscientemente tanto o rapaz quanto a jovem conseguia perceber a sensação de que a maioria dos que pelos corredores circulavam mantinham suas atenções voltadas para o quase profissional da saúde. Quase profissional por que ainda não possuía o título definitivo de médico.
postado por Oiram Bourges Quarta-feira, Agosto 23, 2006
CORAÇÕES PERTURBADOS
Cap. 6
Gláucia estava apreensiva, não sabia direito o que fazer para conter o nervosismo repentino. O trabalho dos outros dias praticamente se acumulou por que seus pensamentos estavam acompanhando os de Gustavo. Eis que surgiu uma idéia um tanto absurda de viajar até a cidade onde seu eterno namorado estava morando para prestar auxílio no que pudesse ser útil. Mas ela já não conseguia agir com razão. Estava sim, agindo através da emoção. Coisa que, aliás, na maioria das vezes não é de grande valia, principalmente quando acontece um caso estranho e sem explicação como este.
Chegou em casa, depois do expediente, totalmente eufórica. Queria contar à mãe sobre seus planos e sobre o que aconteceu com seu namorado. Vamos considerar que sejam realmente namorados, pelo menos para ajudar no entendimento da história. Contudo, assim que chegou em casa percebeu que se contasse seus planos poderia não dar certo. Então pensou, e pensou, e decidiu que se contasse não daria certo, pois certamente, tanto pai quanto mãe, fariam com que a moça desistisse desta idéia. Que vamos e venhamos, um tanto maluca. Mas como boa mãe que era, comunicou a Jonas, seu filho, sobre o que pretendia fazer para salvar a vida de Gustavo. E como Jonas também gostava do rapaz aprovou a idéia da mãe.
No dia seguinte acordou cedo e saiu para trabalhar não menos eufórica que quando chegou em casa no dia anterior. Como ela estava com horas de sobra no emprego, de tanto trabalhar além do horário previsto, a primeira coisa que fez assim que entrou no local onde trabalhava foi pedir uns dias de folga. A gerente deu-lhe uma resposta negativa dizendo que naquele momento não poderia conceder os tais dias de folga por que a agência passaria por uma reforma administrativa, e todos os funcionários precisariam se adaptar a essas reformas antes do período de férias de final de ano.
Inconscientemente pediu então para que lhe dessem a conta, pois com ou sem reformas administrativas ela iria tirar uns dias de folga. Sentindo-se ameaçada com este aviso, e com receio de perder a melhor funcionária, a gerente abriu uma exceção. Deu-lhe uma semana para descansar. A responsável pela agência sabia que se perdesse Gláucia por uma simples formalidade burocrática, coisa que, aliás, sua funcionária já estava interada de tais reformas, poderia causar àquela filial da empresa uma grande complicação. E logicamente não conseguiriam alcançar a meta, porque seria muito difícil encontrar uma substituta à altura desta que era seu braço direito.
Feliz e radiante ficou a moça ao saber que seu pedido tinha sido aceito pela gerente. Porém, continuava preocupada com a situação de Gustavo. E ainda, tinha planos para levar Jonas, o filho dela, junto nesta viagem. Acreditava que poderia ser útil em qualquer momento desta aventura maluca. Sabia que seria perigoso para ambos os três tal maluquice, mas a força de vontade de salvar seu amado seria um prêmio sem igual. E com seu carro, que já estava consertado, pegou a estrada com Jonas à tira-colo, e logicamente que mais umas poucas peças de roupa para não atrapalhar em nada seus planos.
Saíram os dois sem muita demora e sem muitas explicações, Gláucia disse apenas que sairia por um breve período para descansar. Disse ainda que estava saturada do serviço, e uns dias de folga vieram à calhar. Na verdade não quis dar muitos detalhes da viagem para seus pais, pois acreditava que poderiam impedir de cometer esta loucura. E esta era uma coisa que certamente fariam. Mesmo sem saber do que acontecia com o rapaz lá na outra cidade sabiam que a atitude da filha não era a mais sábia para aquele momento.
Apesar de ela não ser muito boa em inventar histórias conseguiu convencer os pais sobre a viagem de descanso. Pelo menos se fizeram acreditar que tinham acreditado na história. Digo, apenas a mãe da moça se fez acreditar, pois sempre consegue enxergar além dos outros em ocasiões como esta. No entanto, não procurou se ater nos detalhes do falatório, observou apenas as reações corporais de sua filha. Mãos geladas, olhares perdidos e uma leve gagueira acompanhavam as palavras de Gláucia. O nervosismo era nítido, mas só aqueles que prestam atenção nos sinais conseguiam perceber que algo errado ia acontecer.
Ao final das despedidas houve muitos desejos de boa viagem, atenção na estrada e coisas deste gênero. Os beijos e abraços vieram em seguida. Tudo para que eles tivessem realmente uma boa viagem. Para finalizar com o conhecido e maçante ritual, dona Helena, a mãe da moça, disse-lhe ao ouvido, e com um pouco de apreensão, para tomar muito cuidado, tanto na estrada quanto no lugar para onde iriam viajar. Ela não sabia ao certo o que acontecia, ou o que ia acontecer, mas sentia que coisa boa não era.
postado por Oiram Bourges Quarta-feira, Julho 05, 2006
CORAÇÕES PERTURBADOS
Cap. 5
Semanas se passaram e Gláucia, mais tranqüila pelo que lhe aconteceu, mas não menos traumatizada. Então ela recebeu uma ligação de Gustavo. Uma grande e agradável surpresa para compensar o ocorrido. Ele ligou para conversar um pouco, ver como estavam as coisas com sua amada, ainda que não se deixe perceber isto. Na verdade era uma desculpa para conversar com a moça. E também fazer um desabafo, pois não estava tendo melhores dias por lá, na cidade onde ele estava fazendo a residência. Coisas inexplicáveis andavam acontecendo para ele. E tais coisas estavam acontecendo para prejudicá-lo no hospital.
Havia conflitos e corrupções entre os funcionários da instituição. Coisas que, aliás, pareciam convergir para Gustavo. Não que ele fosse culpado do que acontecia por lá, mas estavam criando uma situação na qual o rapaz se encrencaria a ponto de se tornar culpado por todas as coisas que estavam acontecendo. E o tio, que era um dos sócios da empresa e responsável pela parte comercial da mesma sabia que a situação de seu sobrinho não estava muito boa. Sabia também que esta situação iria até piorar. Quanto a Gustavo, poderia ser inocentado tranqüilamente se o seu parente quisesse, mas aí o esquema de suborno que tinham com as autoridades policiais, com empresas de diferentes ramos comerciais, e com alguns funcionários da prefeitura viria à tona. E se isso acontecesse mesmo, uma porção de gente importante acabaria presa.
Era um esquema grande que dependia da conivência de uma pessoa apenas. E tal pessoa teria de fazer vistas grossas para o problema que estourava na mão de uma outra pessoa. Sendo que esta era totalmente inocente, e ainda, possuindo um grau de parentesco. Uma situação de difícil decisão, mas o tal esquema não podia nem devia ser quebrado pelo fato de existir um familiar envolvido. Além do mais, Gustavo fora convidado para atuar no hospital justamente para fazer parte, mesmo que sem saber, das falcatruas. A intenção do tio do rapaz era dar às autoridades um culpado, e assim, livrar os integrantes desta rede de corrupções da prisão.
Uma verdadeira crueldade para quem não fazia parte desta sociedade escusa. Logicamente que nem todas as pessoas que trabalhavam no hospital eram assim, existiam aqueles que faziam o bem, e que realmente mereciam estar naquele local. Embora os que trabalhavam direito não tinham influência alguma nas decisões empresa, ou seja, eram apenas funcionários. Apenas cumpriam ordens e cuidavam dos doentes. No entanto, alguns dos médicos que atendiam este hospital no passado foram escolhidos a dedo pela organização e tentados para participar como membro desta outra equipe. Claro que era para fazer a linha de frente, ou seja, ser o bode expiatório para, se no acaso, alguma coisa desse errado.
Obviamente que nenhum dos profissionais íntegros aceitaram. E para que tais profissionais não revelassem os segredos deste grande esquema era tirado de circulação, literalmente falando. E após algumas tentativas frustradas e arriscadas de encontrar alguém tolo o bastante para aceitar a missão de levar a culpa. Esta organização resolveu adotar outro método, passou a se utilizar das pessoas sem que elas soubessem que estavam fazendo parte de um negócio muito lucrativo e altamente perigoso. Bom, a parte muito lucrativa ficava para os sócios, e parte altamente perigosa ficava para aquele que não sabia de nada.
Como as provas dos crimes de extorsão, compras de corpos dos necrotérios e das empresas de luto que atuavam junto a prefeitura, mais subornos e alguns assassinatos poderiam ser facilmente encontradas pela polícia da cidade, que, aliás, também fazia parte do esquema, não dava chance nem tempo do culpado se defender das acusações. E quando o escolhido para ser culpado conseguia um advogado para o defender era sumariamente executado na própria delegacia pelos outros detentos. Sendo que estes recebiam uma contribuição monetária pelos préstimos oferecidos, mesmo que às vezes tais serviços sujos fossem feitos a contragosto.
Assim que Gláucia soube disto pediu para que ele fugisse da cidade, voltasse para a capital, ou, melhor ainda, fosse para qualquer outro lugar até que as coisas acalmassem. E então, com as coisas mais tranqüilas seu amado poderia voltar. Desta maneira as acusações seriam revistas, ou qualquer coisa que pudesse amenizar a situação do rapaz. Pelo menos não seria preso sem facilmente. Era o que a moça pensava a respeito. Mas ele, íntegro com seus deveres, e pensando que tal ato poderia piorar a própria situação, disse à Gláucia que preferia se entregar se caso fosse preciso. Assim poderiam resolver tudo mais rapidamente. E ele não ficaria conhecido como fujão ou algo semelhante.
A jovem, pelo pouco que conhecia de Gustavo já sabia que estaria pronto para se entregar, como ele mesmo havia dito. Mas tentou, como única esperança, persuadi-lo desta decisão precipitada. Ainda que fosse a mais correta neste caso. Pensava a moça assim, antes de um possível desespero dominar a ambos por completo. Contudo, o jovem médico já estava decidido resolver tudo de uma vez para que sua vida profissional não fosse maculada desta maneira. E o pensamento dele não era de todo o mal, pois os erros seriam descobertos logo, consecutivamente, a sociedade saberia quem era o, ou, os responsáveis pelo que estava acontecendo no hospital.
Mas tal pensamento só daria certo se as autoridades da região fossem integras em seus afazeres, e se não fossem corruptas e podres. Neste caso, a boa vontade de Gustavo poderia ser um grande problema, tanto para o rapaz como para o tio dele que, provavelmente se existisse uma denúncia por parte do acusado, no caso seu próprio sobrinho, teria de tomar drásticas decisões a respeito. Um abafamento deste caso seria o mais provável que acontecesse, ou, como diriam por aí, na linguagem policial: uma queima de arquivo. E sabendo da vontade de Gustavo para decidir tudo de uma vez, o perigo de sua própria morte era, de certa forma, iminente.
Por outro lado, o pensamento irresponsável e precipitado de Gláucia que surgiu sem pensar direito nas conseqüências serviu de aviso para alguma coisa ruim que poderia acontecer. Na verdade ela não queria dizer aquilo, mas se sentia aflita com a notícia, e esta aflição pôs palavras em sua boca. E sem saber de como seria o final desta história ela fez tal sugestão ao rapaz. Talvez alguns estudiosos dissessem para uma ocasião como esta que, palavras ditas assim, sem pensar, nada mais seria que um honesto e puro instinto de preservação.
Certamente que, pelo menos a princípio, que Gustavo não aceitou esta dica insana. Mas à medida que o tempo ia passando para ele, e as coisas pioravam gradativamente, lembrou do conselho inocente e despretensioso da amante, que era o de fugir. Evitou comentar com seus pais a respeito de uma possível fuga, pois eles já estavam doidos, e até arrependidos com esta idéia de terem induzidos nos pensamentos do filho para fazer a tal da residência no interior. Só por que conheciam uma maneira mais curta de fazer com que o rapaz vencesse na vida sem ter de passar pela burocracia normal que todos os recém formados costumam passar.
Claro que esta idéia de ir de fato para o hospital onde havia um familiar como sendo um dos sócios desta instituição, se deu, definitivamente por causa do surgimento de Gláucia na vida do rapaz. Antes disso a tal residência no hospital era apenas um pensamento sem grandes convicções, tanto por parte do jovem formando, quanto de seus pais, pois estes também tinham médicos conhecidos na capital que poderiam ajudá-lo de alguma maneira. Se bem que o tio, um dos sócios da empresa, já fazia questão de levá-lo para fazer com que seu sobrinho se tornasse um profissional da saúde verdadeiramente respeitável no mundo da medicina. Coisa que talvez não conseguisse na capital. Argumento este dito pelo tio aos pais e para o próprio Gustavo.
Como o envolvimento do jovem com a Gláucia estava aumentando sem controle, fato este que até a interesseira e chata de sua quase noiva começava a perceber, os pais dele, digo, a mãe convenceu o marido, que era pai dele, e que este convenceu Gustavo que deveria terminar sua formação médica no hospital do Altair, o tio do rapaz. Sem suspeitarem de que um homem respeitado e de grande responsabilidade estivesse fazendo parte de um caso tão medonho quanto este, mandaram o filho para concluir os estudos a adquirir conhecimento na ciência pela qual se decidiu por estudar.
postado por Oiram Bourges Sábado, Julho 01, 2006
CORAÇÕES PERTURBADOS
Cap. 4
O tempo foi passando e Gláucia contava os dias, as semanas e os meses a espera de alguma notícia, ou qualquer coisa que lhe animasse o espírito. Até que certa vez recebeu uma carta de Gustavo dizendo que estava tudo bem, apesar da falta que sentia dela. Porém, estava cheio de trabalho no hospital onde estava fazendo residência, e o pouco tempo que tinha de descanso recebia visitas, ora da namorada, ora dos pais dele. Mas que no fundo sentia falta mesmo era daquela que tinha conhecido há pouco tempo, ou seja, da Gláucia. E que fazia planos para o futuro junto com a amante, dar um irmãozinho para o filho dela e coisas do gênero. Entretanto, tudo isso não passava de um consolo para a moça, pois esta sabia que a almejada união entre eles dois seria praticamente impossível.
Ela, ainda cultivando em pensamentos um mundo maravilhoso para sua própria vida, logicamente em companhia do rapaz, aguardou por receber mais dessas cartas. Porém, fazia de tudo para que não criasse expectativas, justamente para evitar mais uma decepção amorosa. Mas naquela noite Gláucia dormiu com um sorriso estampado na face, e com o coração batendo sem moderação não se importou se iria se decepcionar ou não com aquela situação onde se encontrava.
Os dias seguintes passavam de maneira morna, sem emoções. Pelo menos para ela, que mesmo sem querer cultivar os desejos de uma união com Gustavo era bombardeada por pensamentos de amor eterno e coisas do gênero. No entanto, não deveria se entregar a devaneios, pois isto certamente a afetaria em seu desempenho profissional. E se alguma coisa errada acontecesse em seu emprego, e que ela fosse a culpada, poderia perder alguns benefícios, profissionalmente falando. E tais benefícios lhe caiam muito bem no final do mês. E se, muitos outros erros acontecessem, devido a seus pensamentos sem fundamentos, poderia até, perder seu cargo na empresa, ou até mesmo o emprego. Coisa que, aliás, seria desastroso no caso dela, pelo fato de ainda ter um filho pequeno para criar.
Pensando desta maneira preferiu se dedicar ao emprego e deixou que o destino fizesse o resto por ela. E assim, mais um tempo a vida, por assim dizer, passou por ela. Sem grandes emoções, ou algo que lhe desse um pouco de prazer. Porém, sabendo-se que ninguém vive perfeitamente bem sem as paixões, emoções ou algo que nos dê um tempero em nossas vidas, ou simplesmente algo que diferencie de nossos cotidianos, ela, depois de recusar muitos outros convites de suas colegas de profissão para ir a uns poucos bares onde as mulheres eram vistas apenas como clientes do estabelecimento, e não como mulheres de vida fácil, resolveu aceitar, ainda que, com um pouco de receio, pois nunca fora a um lugar desses.
E então, depois de combinar o local e o horário com suas colegas no final do expediente de sexta-feira, e aproveitando que nada acontece em sua casa, Gláucia rumou com pressa, toda produzida e ansiosa até o bar. E logicamente foi de carro, pois nesta época ela já estava em condições de possuir seu próprio automóvel. Além do mais, não saberia que horas voltaria para casa. E, ainda, não saberia se alguma delas lhe daria carona de volta. Não que fossem egoístas ou coisa parecida a ponto de negar-lhe uma simples carona, mas como também eram solteiras poderiam encontrar seus pares por lá. Coisa facilmente aceitável por Gláucia, pois ela também se encontrava na mesma situação que suas colegas, Marisa, Shirley e Bianca estavam.
As horas passaram e as meninas estavam em festa. Os flertes aconteciam naturalmente entre elas e os rapazes que por lá se encontravam. Até que, num certo momento, o mais bonito deles, o que tinha pinta de conquistador se virou para a direção de Gláucia e deu um largo sorriso. Os amigos, ou apenas conhecidos do rapaz, não sei dizer, o incentivaram para que fosse conversar com a moça. E as colegas da Gláucia a incentivavam para que fosse amistosa neste encontro.
Ela, empolgada com a situação o aceitou ao seu lado na mesa onde estava para uma conversa. Tudo estava indo incrivelmente bem. Todos se juntaram para uma grande conversa na mesa. Tanto que trouxeram outra mesa e tantas outras cadeiras para aumentar o conforto desta mútua aproximação. Bebidas foram pedidas e petiscos deram um tempero especial na conversa. Horas se passaram e a empolgação dos times, tanto do lado feminino quanto do masculino cresceu. Alguns dos casais já se encontravam abraçados, ou de mãos dadas. As moças estavam radiantes, e os rapazes excitados com o encontro casual.
Passava das três horas da madrugada e os planos de prolongamento da diversão começaram a ser expostos ao grupo. Idéias de amanhecer o dia em algum lugar qualquer também surgiram. Idéias essas não aceitas pelas moças, obviamente, pois eram ousadas demais para o ponto de vista delas. Mas acabaram topando sair daquele bar para passarem em um outro bar, a fim de pegar mais uns amigos, que supostamente lá estavam. Depois iriam a uma lanchonete para concluir a noitada em grande estilo. Pelo menos para o pensamento delas a noite com este final seria perfeito.
Contudo, para eles, os rapazes, isto era apenas o começo da festa. Mas permaneceram comportados, sem mostrar suas reais intenções. Desta forma poderiam conquistar a confiança delas para que realizassem seus desejos. Mesmo que isso fosse difícil. Afinal de contas isto era uma conquista por parte deles, e quanto mais difícil fosse a conquista, melhor seria o prêmio no final das contas.
Então, antes de saírem para o outro bar, alguns dos rapazes foram ao sanitário. Até aí tudo bem, nada demais. Porém, ao voltarem pareciam diferentes. Mas isso era de uma sutiliza incrível que quase ninguém conseguia perceber. E assim mesmo pensavam que fosse efeito do álcool ingerido por eles. Perfeitamente normal para os ambientes de bar. Se bem que, não eram só eles que estavam levemente alterados. Gláucia e suas colegas também se encontravam um pouco embriagadas. E, como festa é festa, nem ligaram para a situação. Aproveitando o embalo pediram uma bebida para cada um dos que estavam no grupo. Para consolidar uma nova amizade, diziam eles. Todos concordaram. Sendo assim, beberam todos numa virada só, como se fosse um grande brinde.
Com as pernas amolecidas e as cabeças rodando sem controle, mas ainda assim com animação, Gláucia e as colegas cederam aos insistentes pedidos para acompanhá-los na saída pela noite até verem amanhecer o dia. Como tinha apenas dois carros disponíveis, os dois veículos inclusive foram neles que todos se amontoaram e partiram em busca de farra. Logicamente que nenhuma das moças poderia dirigir seus respectivos automóveis, pelo fato da embriaguez. Missão incumbida aos rapazes que soubessem guiar, claro. No entanto, esta era uma coisa difícil de fazer, pois todos se encontram na mesma condição. Mas, como não queriam demonstrar fraqueza e perder a chance de se aproveitarem das moças, fizeram pose de forte e saíram pela estrada a fora atrás de diversão.
Lá pelas tantas, quando o céu começava a clarear, os sentimentos esquecidos pela bebedeira voltava na memória de Gláucia como se fossem pedras atingindo uma vidraça. E isso também valia para a situação em que se encontrava, cheio de pessoas desconhecidas e socadas no mesmo carro. Melhor dizendo, o carro dela entupido de gente estranha, e sendo conduzido por uma pessoa que jamais havia visto na vida. E pior de tudo; suas colegas estavam em outro carro. Mas para não entrar em pânico, coisa que a qualquer momento isto poderia acontecer. Resolveu então conversar com os rapazes para tentar um entendimento, pois para os pensamentos da moça, eles, que estavam com jeito de drogados, queriam fazer algo de ruim com ela.
Humberto, o que dirigia o carro no momento estava alucinado. Apenas a mão direita estava ao volante, a esquerda estava para fora do carro. E aproveitando a barreira natural que o vento impunha ela fazia movimentos ondulatórios, como que imitando as ondas do mar. Já os outros dois, o Carlos Alberto e o Almir, riam de qualquer coisa que acontecia. Até das coisas que nem aconteciam. Estavam completamente entorpecidos, sob efeito das drogas que usaram no banheiro, antes de sair daquele primeiro bar. Se bem que tudo aconteceu naquele primeiro bar, coisa que, aliás, foi o único, porque o tal segundo bar nem aconteceu. Aquilo foi só um estratagema para enganá-las. E pela lanchonete, nem por perto passaram.
Quanto às colegas de Gláucia, também não estavam com os pares considerados ideais, ou aqueles que procuravam, mas se deram melhor na escolha dos rapazes em um único aspecto, eram tolos, pois eram mais tranqüilos e mais fáceis de dispensá-los. E em pouco tempo elas já estavam livres da rapaziada, que também estava amalucada pelo uso das drogas. No entanto, não procuraram saber da colega, que estava sozinha com três desses malucos no próprio carro. Elas simplesmente foram para suas respectivas casas a fim de descansarem. Afinal de contas ficaram praticamente 24 horas acordadas.
Porém, a Gláucia não tivera a mesma sorte que de suas colegas. Ela ainda se encontrava no mesmo veículo, e com os três rapazes. Sendo que dois deles ficavam rindo, desmedidamente de suas próprias faces, que se derretiam e pingavam em seus colos, segundo o imaginário deles. Logicamente efeito causado pelas drogas usadas anteriormente. E um terceiro, e mais problemático, ao volante. Que de quando em quando acreditava voar pelos céus com o braço esquerdo para fora do carro. Os gritos que a moça dava para alertá-lo do perigo que corriam não adiantavam em nada, pois ele estava com o olhar perdido, e procurando desesperadamente uma fuga da realidade onde vivia. Então se imaginava um pássaro, ou qualquer coisa que pudesse voar.
Lá pelas tantas, quando tudo e todos não se agüentavam mais ficar dentro do carro Humberto, aquele que estava dirigindo, ou melhor, voando pelos céus, não conseguiu fazer uma curva e saíram da pista com o automóvel caindo numa grande valeta. Por sorte ninguém se machucou gravemente. Esta situação gerou apenas alguns arranhões nos ocupantes do veículo. A pior parte mesmo ficou para o veículo, todo amassado, e ainda, com mais da metade das parcelas das prestações para Gláucia pagar. E, além disso, tinha um outro problema, que consistia em onde encontrar um guincho naquela hora para retirar o carro daquele lugar. Sendo que não tinha um telefone público para ligar e avisar seus conhecidos. E também tinha um outro problema, coisa que talvez fosse o pior de todos, como: o que falar para seus pais sobre este incidente.
Apesar de toda esta confusão desnecessária ela conseguiu chegar a sua casa sã e salva. Mas claro, foi de táxi. Seu carro foi para o pátio de uma empresa de guincho, que conseguiram localizar horas mais tarde, depois que o dia havia amanhecido por completo. Entrou em casa envergonhada bem no momento do café da manhã. Não sabia o que dizer para sua família. Procurou se explicar, mas não encontrou as palavras para o que ela havia feito. No lugar disto, vieram as lágrimas. Sentia-se culpada pelo ato irresponsável e infantil que cometera. Mesmo sabendo que poderia contar com a compreensão e ajuda de seus pais para o fato ocorrido preferiu se isolar em seu quarto. Então passou o resto do final de semana trancada e chorando.
postado por Oiram Bourges Quinta-feira, Junho 22, 2006
CORAÇÕES PERTURBADOS
Cap. 3
Dia seguinte; ambos mais calmos. Conseguiram então marcar um encontro para uma conversa. Em um horário e lugar determinado por Gustavo ela chegou trazendo o objeto que causou a pequena discussão entre eles. Contudo, havia ainda entre eles um ar de paixão e cumplicidade. Mesmo sabendo que iriam tratar de um assunto complicado. Então, como ele chegou primeiro, aproveitou para fazer os pedidos, pois tinham marcado para conversarem em uma lanchonete.
Dado o tempo marcado Gláucia chegou abatida, quase não tinha vontade de falar. Sentia um nó em sua garganta. Assim mesmo ainda esboçou um sorriso para não ficar nítida a mágoa que sentia de seu amante. Além de dar um leve beijo nos lábios dele. O nervosismo era bastante perceptível entre os dois. Não sabiam se ficavam segurando suas próprias mãos para não demonstrarem a impaciência que estavam para resolver logo este assunto tão penoso, ou se pulavam esta parte da conversa e tratavam de se abraçarem como antes, ou se exporiam tudo num só assunto para decidir o que fariam de suas vidas. Ninguém sabia explicar, mas existia naquele momento um clima tenso. Era perceptível que ambos queriam se abraçar, mas ao mesmo tempo acontecia um afastamento... por parte de Gustavo.
Diante das dificuldades encontradas sobre quem começava a conversa, Gláucia resolveu se adiantar com a entrega do tal lenço. Foi a maneira que encontrou para romper a barreira invisível que dividia os dois, mesmo estando muito perto um do outro. E ainda pediu desculpas pela demora na entrega do objeto, motivo este que, para ela era simplesmente insignificante, mas que gerou um grande problema para os dois. Com uma conversa sem muito entusiasmo começaram, e também, se prolongaram até que a moça ouviu uma novidade nada boa por parte dele, e que preferiria nem ter ouvido.
Tratava-se de uma viagem à Paris que seus pais o tinham presenteado por ter se formado em medicina. Mas a péssima notícia para Gláucia ainda estava por vir. Desconfiando de que tudo era um estratagema para um rompimento na relação ela se adiantou:
-- Tem algo a mais para me contar? Perguntou ela enquanto espremia suas próprias mãos na tentativa de descontar em alguma coisa seu nervosismo.
-- É, tenho. Quando voltar de viagem vou morar no interior do estado, para fazer residência na hospital onde meu tio é um dos diretores, lembra? Falando como se ela estivesse esquecido que isso aconteceria um dia.
-- Claro que lembro, mas você disse, em outro momento, que tentaria fazer com que desistissem dessa idéia, e que depois tentaria algo por aqui mesmo. Disse assim com uma voz um pouco trêmula, pressentindo que tudo acabaria entre eles.
-- É, você tem razão. Mas resolvi que por lá será melhor para mim. Além do quê, sinto que, eu e minha namorada estamos nos dando bem ultimamente. Então pensei que poderíamos dar um tempo em nossa relação para eu decidir sobre minha vida e... creio que seja isso. Sabe, ando muito confuso. Tenho muitas cobranças na vida, e em todos os sentidos. Explicou assim Gustavo gesticulando muito e sem olhar para a moça.
-- Então quer dizer que eu não sou importante para você? Eu não passei de um passa-tempo, ou que eu só arrumei confusões para você? É isso? Com os olhos marejados e sua face levemente rubra assim perguntou.
-- Não é assim. Não foi assim. Não desta maneira como você está expondo. Foi bom. Você é importante, mas tenho que trilhar meu caminho... olha Gláucia, preciso ir agora antes que as coisas fiquem complicadas demais para conversas. Espere por mim, pois um dia, quando você menos pensar, eu estarei te esperando na frente da tua casa com um ramalhete de belas flores, e com uma boa notícia. Mas para que isso aconteça é preciso ter paciência e compreensão da tua parte. Porém, agora preciso ir mesmo. Até um dia. Despejou desta maneira estas palavras pesadas como chumbo sobre Gláucia. Então se levantou de perto dela e deu um outro leve beijo nos lábios da moça, que estava aturdida e sem reações para dizer qualquer coisa naquele instante.
Assim sendo ele se dirigiu até o caixa, pagou a conta, olhou mais uma vez para a moça, que começava a chorar, e partiu com pressa, decidido, e sem olhar para trás. Gláucia procurou se controlar, mas foi em vão. Caiu em um choro contido, com receio de chamar a atenção das outras pessoas que na lanchonete estavam naquele momento. Ela chorou de medo, pela dor da perda, pelo pouco caso feito dela, de ter seu orgulho ferido, e ainda, chorou por ter perdido seu amor para sempre. Pelo menos foi assim que ela pensou naquele momento. Sentia-se arrasada. Logicamente que não era para menos, pois ela foi a um encontro para conversar, esclarecer alguma dúvida, e não para terminar um relacionamento. Por mais que não fosse o mais certo dos relacionamentos. Afinal de contas, ninguém gosta de perder.
Após um tempo conseguiu juntar forças para se levantar de onde estava sentada e foi embora para casa, cabisbaixa, sem ânimos, sem expressão na face, sem vida. Aquele dia para Gláucia era o mesmo que o fim de sua existência. Mas com o passar do tempo este pensamento foi passando, como ela já tivera uma outra desilusão amorosa no passado, não foi muito difícil de acostumar com a idéia de ter que ficar sem alguém para dividir confidências ou trocar carícias.
Para o cotidiano Gláucia voltou. Desanimada e com poucos sorrisos ela desempenhou sua função na empresa onde trabalhava pelos dias conseguintes. Com suas colegas apenas conversava o essencial enquanto enfrentava esta situação. Procurou se preservar quanto aos comentários que poderiam, e certamente seriam feitos a respeito do ocorrido se ela tivesse dado liberdade para esses assuntos. Afinal de contas este é um tema que dá margens para comentários ferinos, inflamados, rancorosos, e logicamente, desnecessários. E tudo o que ela não precisava no momento era dessas coisas. Contudo, a tristeza de quando em quando lhe castigava com as doces lembranças em alguns períodos do dia, principalmente naquelas horas onde a agência onde trabalhava não tinha clientes para atender, na volta para casa, após o término do expediente, e na hora de dormir. Momento este que, aliás, lhe tirava de seus olhos gotas de lágrimas. Mas tal sentimento era amenizado depois que recebia um beijo de boa noite de seu filho. Além do que, como chegava sempre cansada do trabalho era relativamente fácil pegar no sono depois de um agradável banho.
postado por Oiram Bourges Terça-feira, Maio 09, 2006
CORAÇÕES PERTURBADOS
Cap. 2
Dia seguinte, 10h15, Gustavo ainda estava dormindo, mas sua mãe não quis importuná-lo. Apenas pegou seu terno para escová-lo e guardá-lo no guarda-roupa. Porém, notou que seu filho não estava com o lenço que levara junto, e que era de seu pai. Assim mesmo deixou-o dormir um pouco mais. Quase duas horas se passaram. Ela voltou ao quarto e acordou dizendo que a mesa já estava posta. Mais alguns minutos se passaram, e Gustavo, com o rosto cansado, mas com um ar de contente, fora almoçar.
Mesmo com a surpresa de encontrar Verônica, sua namorada, sentada ali, junto dele, e perguntando: como foi a festa? Irmã de qual de seus colegas fez quinze anos? Dançou com ela também? Por que não me avisou do baile?
-- Podemos almoçar primeiro antes de repreensão? Perguntou ele indignado.
-- Não estou repreendendo ninguém, estou somente perguntando. Disse assim ela.
-- Mas com este tom na voz esta me parecendo uma repreensão. Afirmou ele.
-- Ora meus filhos, deixem disso! Almocem. Preparei uma deliciosa macarronada hoje, e ainda, com a maionese preferida de vocês. Se quiserem poderemos ouvir uma música para acompanhar na refeição. Disse assim a mãe de Gustavo.
-- Hum! Bonita música esta. Disse Verônica entre uma garfada e outra.
Gustavo não disse nada. Coincidentemente esta era a música que ele e Gláucia ouviram no carro enquanto voltavam do motel. Isso o deixou com seus pensamentos ainda mais distantes.
Gláucia acordara mais cedo que seu, agora, namorado. Afinal, tinha de ajeitar a casa, lavar seu uniforme de trabalho, além de algumas peças de roupa dela, de seu filho, e de algum outro membro da família. E ainda, lavar o lenço que acabara de ficar com ela. Foi aí que percebeu a existência de iniciais gravadas no tecido. E que não eram do Gustavo. Pensou em ligar para ele, avisando-o do esquecimento. Mas sabendo que costumam ficar todos em casa no domingo preferiu não ligar para lá. Poderia, e certamente iria criar suspeitas. Sendo assim, deixou para ligar na segunda-feira de seu serviço.
Na manhã seguinte estava decidida em ligar para a casa dele. E mesmo com um certo receio de criar problemas maiores, resolveu que seria o melhor a fazer. Porém, antes deveria criar uma boa desculpa, ou uma pequena mentira, e para isso deveria ser uma boa, que não criasse dúvidas, nem para a namorada nem para a mãe dele, pois qualquer deslize poria ser romance por água a baixo. Mas isto, a tal desculpa, seria difícil de inventar enquanto tivesse, diante de si, bastante serviço para ser executado. Sabe, era sempre corrido para Gláucia nos começos de semana. E parece que naquele dia as coisas estavam mais complicadas que o normal. Tanto que nem conseguiu sair para o almoço. A conseqüência de tudo isso foi que esqueceu da ligação.
Final de expediente. Estava exausta. Fadigada. Foi embora para descansar. Recuperar suas energias para, no outro dia, ver qual desculpa poderia criar. E em casa, enquanto se preparava para tomar um relaxante banho percebeu que o lenço, motivo de sua atual preocupação, não estava mais consigo. Havia perdido. Como isto poderia acontecer, sendo que sempre foi bem organizada. Pensou na hipótese de terem roubado no ônibus. Mas por que roubariam tal objeto? Pensou. Não tinha explicação lógica para isso. De repente:
-- Filha... Telefone para você. É o Gustavo. Parece estar doente, está falando com voz ofegante e em tom baixo. Disse assim a mãe da moça.
-- Gustavo? Tudo bem?
-- É, estou... Por um acaso você ficou com um lenço naquele final de semana? Perguntou ele eufórico.
-- Fiquei. Disse ela.
-- Que bom. As coisas aqui em casa ficaram um pouco cansativas por causa deste lenço. Disse assim ele, ainda eufórico. ¿ Poderia me devolver, se não fosse pedir demais, com um pouquinho de pressa? Hoje talvez. Continuou ele.
-- Sabe... Eu levei hoje cedo para o serviço para te entregar, mas como tinha bastante coisa para fazer acabei esquecendo. Gláucia assim falou.
-- Puxa! Mesmo que não tenha conseguido pegar hoje fico aliviado por saber que está com você. Disse suspirando.
-- Mas tem uma coisa... É... Sabe... Não sei bem como dizer. Agora quem estava eufórico era Gláucia.
-- Diga, o que aconteceu? Perguntou receando que algo de pior pudesse acontecer.
-- Bom, o lenço...
-- O que aconteceu com o lenço? Minha mãe e a Verônica não me dão folga um só instante. Querem saber o que aconteceu com este lenço. Por favor, conte logo. Disse assim com a voz já alterada.
-- Está bem... Eu não sei onde foi parar, e...
-- Como é que é? Perdeu o lenço? Gritou Gustavo do outro lado.
-- O que aconteceu com você? Onde está a pessoa agradável que conheci há algum tempo? Não quero que grite assim comigo. Retrucou Gláucia já aos prantos.
-- Me desculpe Gláucia, mas este objeto é importante para mim. Disse ele tentando acalmar a situação já um tanto perturbada.
-- Tudo bem, o lenço é importante para você. Está querendo dizer que eu perdi o valor a ponto de um simples pedaço de pano ter mais importância do que eu? É isso? Perguntou indignada e impressionada com o pouco caso dispensado pelo rapaz.
-- Não quis dizer e nem pensei nesta hipótese. Estou apenas querendo esta coisa para ver se me deixam em paz aqui em casa. E aí então poder pensar em você com mais tempo. Só isso. Falou assim e com uma voz macia na tentativa de acalmar os ânimos da moça. E conseguiu. Com a habilidade que tem para enganar sua mãe e a namorada, a escolhida pelos pais, conseguiu fazer com que as coisas ficassem mais amenas entre eles. E assim, conseguir fazer a Gláucia se esforçasse para encontrar o tal lenço.
postado por Oiram Bourges Segunda-feira, Abril 24, 2006
CORAÇÕES PERTURBADOS
(parte final do cap.1)
Novamente estava nervoso, era uma ocasião diferente daquela do aniversário, era uma noite só deles. Nos pensamentos do rapaz nada poderia dar errado. E com esse pensamento positivo chegou no portão da casa e bateu palmas, demorou um pouco e saiu o pai dela na porta, viu quem era e avisou a moça. Enquanto ela terminava de se aprontar o homem veio conversar um pouco para passar o tempo, tudo indicava que o velho tinha gostado do jovem. Não demorou nem dois minutos surgiu Gláucia simplesmente linda com uma saia e um paletó de cor cinza escuro e a camisa de cetim. Os dois se olharam profundamente e deram um largo sorriso. O pai dela olhou para o rapaz e disse todo orgulhoso:
- Essa é minha filha! Portanto tome muito cuidado dela. E também não quero que ela sofra novamente por ninguém. Ah! Quase ia me esquecendo, tenha muito juízo!
- Pode deixar seu Alfredo, ela estará bem cuidada.
Ela se aproximou dele com seus olhos brilhantes de emoção, e num impulso trocaram um terno abraço.
- Como você está lindo! Disse ela radiante.
- Eu só poderia vir desta maneira para me encontrar contigo.
- Quais são as alternativas para esta noite? Perguntou ela empolgada.
- Poderíamos ir ao cinema, ou talvez ir a um restaurante, ou talvez ainda ir dançar, sei lá, você escolhe.
Foi decidido que primeiramente iriam ao cinema, depois era depois, resolveriam o que fazer após o término do filme. Quase duas horas mais tarde o filme terminou, e então surgiu a dúvida. O que fazer agora?
- Você está com fome? Gustavo perguntou a ela.
- Sabe que depois desse filme confesso que estou sentindo um pouco de fome. O que pretende comer?
- Eu é que pergunto. Insistiu ele.
Então foram a um restaurante comer lasanha e tomar vinho. Maravilhoso para se começar um romance, ainda mais quando a noite está um pouco fria. Enquanto apreciavam o vinho, ficaram esperando a comida ser preparada. Momento de conversar um pouco. Gustavo explicou a sua vida meio perturbada, tanto com a família, como no caso com a namorada arranjada pelos pais. Uma situação complicada e inconcebível para os seus pensamentos livres, que queria se relacionar com alguém por amor, e não por dinheiro. Apesar de surpresa com a revelação feita por ele, Gláucia sentia em suas palavras uma grande sinceridade.
Ela, aproveitando o ensejo desses casos amorosos perdidos, contou a história de quando se envolveu com um homem com quase dez anos a mais que ela. Fora enganada pela experiência dele, e deixou-se engravidar pensando ser a melhor coisa para ambos. Ledo engano. Ao saber disso o homem a deixou sem maiores explicações, e simplesmente desapareceu da cidade sem deixar vestígio. Pobre moça, tinha se entregado ao amor inexistente sem saber. Por outro lado, a vida lhe recompensou com seu filho Jonas, esta dádiva foi capaz de preencher a lacuna criada por este relacionamento tempestuoso.
A sorte dos dois que o pedido feito já estava pronto, ambos estavam ficando desanimados para continuar com o passeio tão esperado. E num passe de mágica esqueceram das más lembranças, voltando atenção para o vinho e a lasanha. Após o jantar descansaram um pouco e Gustavo resolveu pedir uma taça de licor para ajudar na digestão, além de criar um clima mais descontraído. A moça nesse momento o olhava com carinho, e ao mesmo tempo com uma certa malícia. Sem demora os dois entrelaçaram suas mãos firmemente, e depois começaram com carícias sobre as mãos e braços. Os olhares estavam ardentes naquele exato momento, se aproximaram o máximo permitido pela mesa e trocaram um leve beijo. Aquilo parecia incendiá-los por dentro. Então o rapaz pediu a conta e saíram à procura de um lugar mais aconchegante, ou mais apropriado para afagos e afetos.
Pegaram o carro e saíram por aí, sem direção. Gláucia estava sentada com ligeira inclinação para o lado esquerdo, quase se encostando no ombro do rapaz, de repente começou alisar os cabelos dele de maneira bastante carinhosa. Gustavo lembrou de um lugar apropriado para namorar, além de poder realizar certos carinhos pouco usuais diante das multidões. Ela percebeu sua intenção, no início ficou um pouco apreensiva, mas logo relaxou, e sem muita demora resolveu deslizar a outra mão sobre as pernas dele enquanto dirigia o veículo. Seus instintos masculinos afloravam a cada deslizada de mão da jovem, isso fez com que o carro alcançasse velocidades incríveis. E em poucos minutos chegaram na entrada do primeiro motel. Como era sábado de noite, estava cheio, mas não se alarmaram, passaram então para o seguinte. Era um pouco longe, mas era bom, estava com seus preços bons também, e ainda tinha quartos disponíveis, resolveram ficar.
Pararam com o carro na garagem do apartamento indicado na recepção. Sem hesitar um minuto sequer, desceram os dois apressadamente do automóvel e se dirigiram para dentro do lugar. Primeiramente trocaram longos e intensos beijos, ainda numa pequena sala com duas poltronas confortáveis, uma mesinha de centro, e um espelho fixado em frente à porta, depois começaram a se despir. Gustavo tirou o blazer dela, deixando cair no chão, em seguida soltou os cabelos sedosos da moça. Tudo isso sem parar com os beijos. Após esses primeiros movimentos o rapaz começou a beijar delicadamente o pescoço, o que a deixou ainda mais excitada. E com um movimento a deixou de costas para ele, e os dois ficaram de frente para o espelho. Então ele continuou com os beijos no pescoço enquanto ela se olhava e se contorcia de arrepios. Agora quem fazia as carícias era ele, deslizando suas mãos nos seios e nas pernas dela. Neste momento ela já estava com seus mamilos eriçados, nitidamente visíveis até por fora da roupa, e no meio de suas coxas estava deliciosamente úmido.
Gláucia queria mais que carícias, mas pensou em prolongar ainda mais as preliminares. Vagarosamente se virou para ele e começou a despi-lo. Afrouxou o nó da gravata e retirou do pescoço do rapaz, em seguida tirou o paletó e começou a desabotoar a camisa dele. Voltaram a se beijar intensamente, porém agora mais maliciosos que antes, pois Gustavo baixou a saia e a calcinha dela, e passou a cariciar as nádegas após despir a parte de baixo das vestes da moça. Ela retribuiu tais movimentos tirando por completo a camisa, calça e cueca do amante. Ensandecidos pelo prazer Gustavo a tomou em seus braços e a levou para a cama ainda vestida com a camisa de cetim, só após terem realizado o ato propriamente dito é que ela se despiu por completo. Descansaram um pouco e partiram para uma nova investida em meio a uma saraivada de beijos, mas desta vez foi mais elaborada que a anterior. Variaram de posições durante algumas vezes para ficar mais emocionante. E realmente conseguiram deixar mais emocionante, o orgasmo alcançou o estágio de delírio nos dois. Ao concluírem este último ato sexual foram se lavar na ducha do banheiro, e depois foram até a banheira de hidromassagem para poderem descansar melhor.
Ouvindo música e bebendo vinho os dois descansavam na banheira enquanto a água os massageava com suas borbulhas. Mais calmos começaram a conversar, coisas de seus cotidianos estudantis, profissionais e pessoais. Gláucia trabalhava em uma empresa aérea vendendo passagens, trabalho diferente de suas intenções, que era de atuar na área odontológica. Se queixou para ele da frustração de ter a formação acadêmica em uma determinada ciência, e por falta de opção ter de trabalhar em outra completamente diferente. Mesmo gostando de sua profissão não era o que esperava para seu futuro. Além do mais seu salário não era dos melhores, mas para sua sorte não precisava pagar aluguel, e ainda recebia uma ajuda financeira de seus pais. Se não fosse assim seria difícil viver com dignidade, completou ela meio aborrecida com sua situação.
Gustavo pacientemente ouviu toda a indignação dela e também contou suas frustrações e futuros problemas que teria de enfrentar. O primeiro era o da namorada que queria casar com ele, na verdade queria casar com o sobrenome que ele tinha, pois assim lhe traria status. Certamente isso iria impulsioná-la para uma vida melhor. Um outro problema era ter que fazer sua residência (estágio na medicina) no interior do Estado, no hospital onde seu tio era um dos comandantes, digamos assim. Mas explicou a ela que não queria deixá-la de maneira alguma, e tentaria de tudo para não ficar longe de sua companhia. Mesmo a situação sendo difícil para os dois nesse sentido, ele acreditava que poderia haver uma união duradoura entre os dois, ou, entre os três, já que ela tem um filho.
Com palavras emocionantes e cheias de carinho voltaram a se beijar. Ainda sentados os dois trocavam carícias enquanto a água borbulhava. Num movimento ficaram de joelhos na banheira, Gláucia resolveu ousar a partir daí:
- Sente na borda da banheira com as pernas abertas. Falou ela meio encabulada. Sem saber do que se tratava ele seguiu as instruções.
Com carinho e cheia de desejos, mas sem experiência com esta prática sexual ela deu alguns beijos no pênis do rapaz e logo o colocou quase que inteiro em sua boca.
- O que você está fazendo? Perguntou o rapaz assustado.
- Você não gosta? Soube através de revistas que homens gostam disso.
- Na verdade nunca ninguém fez sexo oral em mim. Disse ele.
- E eu também nunca fiz isso com ninguém. Estou fazendo isso porque pensei que fosse estreitar mais nosso relacionamento, deixando de lado algumas de nossas inibições. Disse a moça tentando se explicar da ação inesperada. Quanto à história de nunca ter feito sexo oral era mesmo verdade.
- Na verdade gostei. É que é novidade pra mim. Comentou. Sendo assim continuou com a prática. E mesmo sem os dois terem experiência neste tipo de "assunto" o rapaz gostou do tratamento. Então, para retribuir essa atitude Gustavo também fez essa modalidade de sexo nela. Pode-se dizer que Gláucia foi à loucura nesse momento. Após a noite de prazer e intensa felicidade os dois resolveram voltar para casa, mas isso já era quase duas horas da madrugada. Vestiram suas roupas com o cuidado de parecer que nada de mais aconteceu entre eles. Uma última conferida no espelho do quarto os dois fizeram. Estava tudo perfeitamente como antes. Hora de ir embora.
Passaram no guichê do motel para pagar a estadia. Acertaram tudo e foram embora, muito satisfeitos. Afinal de contas tinham acabado de se conhecerem melhor. Bem melhor. Com ares de satisfação foram embora quase sem falar nada um para o outro. Estava bom do jeito que estava; sem palavras inúteis, sem comentários desnecessários, sem nada que parecesse demais. Apenas a música que tocava no rádio acompanhada da mão de Gláucia repousada carinhosamente sobre a perna de Gustavo. Alguns longos minutos depois o casal parou em frente à casa da moça e se despediram com um apaixonado beijo. Típico para uma situação como esta.
-- Quer que eu te ligue amanhã? Perguntou Gláucia.
-- Prefiro eu mesmo te ligar, se não se incomoda é claro. Você já sabe como é minha mãe creio eu. Disse ele.
-- Tudo bem, então. Disse ela.
E trocaram mais um longo e apaixonado beijo antes dela sair do carro. E entre afagos e pequenos beijos os dois se despediram. A moça, sentindo-se leve como uma pluma, nem percebeu que esquecera de devolver o lenço do rapaz, que estava guardado distraidamente em seu bolso, para ele. Mas não deu muita atenção. Afinal de contas poderia ser um sinal de desculpa para buscá-lo outro dia.
postado por Oiram Bourges Sábado, Abril 01, 2006
CORAÇÕES PERTURBADOS
(continuação do cap. 1)
O jovem rapaz a levou até uma loja de roupas femininas de alta qualidade localizada nas imediações do centro da cidade, mas até chegar à loja não falou nada a respeito. Um pouco antes de entrar na loja ele entrou em uma lanchonete pagou um sorvete para Gláucia. Aquela tarde estava agradável, e merecia algo gelado como um sorvete para deixar ainda melhor o clima. Entre os dois é claro. Na lanchonete os jovens conversaram bastante, finalmente estavam se conhecendo, e estavam muito empolgados em contar as preferências que cada um tinha.
-- Que grande surpresa você me deu no meu aniversário. Posso dizer que estou feliz pelo momento.
-- Você não viu nada ainda.
Puxando ela pela mão assim que terminaram de se refrescar com a delícia gelada, os dois entraram na loja dita há pouco.
-- O que viemos fazer aqui? Perguntou Gláucia.
-- Viemos ver roupas. Pelo menos penso isso.
-- Mas para quem?
-- Ora, logicamente que é para você.
-- Não precisa, só a tua presença basta para mim.
-- Não seja modesta. Escolha alguma coisa.
-- As roupas aqui são caras demais! Sussurrou ela espantada ao ver os preços.
-- Por favor, eu insisto. Escolha algo.
-- Então vamos fazer o seguinte, já que você quer me dar algo, escolha você.
Ele concordou, e começou a procurar algo que realçasse com sua beleza. Pegava uma peça de roupa nas mãos e olhava para a moça, pensava um pouco, e logo descartava dizendo que ficava boa nela. Ela apenas ria baixinho com o jeito do rapaz. De repente tirou de um cabideiro de camisas e casacos uma camisa de cetim da cor pérola, muito bonita por sinal. Olhou com bastante atenção para seu corpo, para seu rosto, e disse:
-- É essa aqui! Prove, veja se fica boa.
A vendedora a conduziu até o provador para experimentar a peça escolhida. Dois minutos mais tarde ela abriu a cortina do espaço reservado para a mudança de roupas dizendo entusiasmada:
-- Gustavo! Puxa vida, ficou ótima! Pensei que esta camisa não fosse ficar tão boa em mim, mas me enganei.
-- Gostou mesmo? Perguntou o rapaz sorrindo.
-- Claro que gostei, mas deve estar muito cara.
A vendedora disse que isso não seria problema para nenhum dos dois, pois a tal camisa tinha entrado em promoção naquela semana. E ainda assim, poderia ter seu preço parcelado sem perder o desconto. Perfeito! Pensou Gustavo com o talão de cheques nas mãos. Feita a compra, resolveram então voltar para casa. Estava quase anoitecendo, e Gláucia ainda que se aprontar para esperar seus familiares.
-- O convite feito a mim, ainda permanece? Perguntou Gustavo.
-- Claro que sim. Sabe o que estive pensando? Vou colocar esta camisa hoje.
-- Que bom, e sabe o que eu estive pensando neste exato momento? Quando nós sairmos para passear gostaria que a usasse novamente, disse o rapaz com voz de empolgação.
-- Combinado. E quando vai ser esse passeio? Perguntou Gláucia ainda mais empolgada.
-- Que tal nesse final de semana?
-- Não sei se posso, por causa do meu filho, mas prometo que se der certo eu te aviso. Ah, agora você pode ligar pra minha casa, já temos telefone.
-- Ótimo! Respondeu ele já anotando o número em sua agenda.
A conversa continuou por todo o trajeto de volta a casa, dela obviamente. Ela tinha que ajudar nos preparativos finais para esperar seus familiares e aí então comemorar seu aniversário. Mas antes de chegar em casa passaram na saída do colégio de seu filho para apanhá-lo. Jonas teve uma surpresa ao ver sua mãe no carro de um estranho, mas entrou no carro assim mesmo porque ficou impressionado com a beleza do automóvel.
-- Quem é você? Perguntou o menino todo curioso.
-- Ele é um amigo meu filho. Eu o conheci no dia que você desfilou pelo colégio no Sete de Setembro.
-- Que carro é esse? Perguntou Jonas observando todos os detalhes de seu interior sem dar muita atenção para a mãe.
-- É um Alfa Romeo.
-- Que bacana, nunca tinha visto um desses. Comentou se acomodando confortavelmente no banco traseiro. E ansiosos pelos preparativos da modesta festa de aniversário foram para casa. Inclusive Gustavo que estava decidido em faltar às aulas daquele dia. Estava disposto a comemorar o aniversário da pessoa que realmente mexia com seus sentimentos, mesmo sendo ainda, por assim dizer, uma estranha.
Muitos beijos e abraços foram dados naquela noite pelos parentes e amigos. Gustavo estava meio sem saber o que fazer, pois mal conhecia a aniversariante. Menos ainda seus amigos e familiares. Foi aí que os pais da moça resolveram conversar com ele, afim de deixá-lo mais à vontade, para descontrair um pouco enquanto Gláucia cumprimentava a todos que lá estavam. Afinal de contas, as visitas eram para ela. Naquela noite a jovem encantadora não pôde dar muita atenção ao seu novo amigo. Mesmo assim trocavam olhares penetrantes de longas distâncias. O rapaz depois de um tempo não se sentia mais uma pessoa tão estranha assim para a família, já estava trocando algumas idéias com seus pais, tios e até com alguns de seus primos, que em outro momento ficou sabendo que pouca gente gostava deles, porque eram considerados chatos.
As horas foram passando, a maioria das visitas já tinham ido embora, estava um pouco tarde, e ele precisava ir embora para que ninguém de sua casa desconfiasse dessa falta às aulas. O rapaz se despediu do resto dos familiares dela e se dirigiu à porta. Prontamente Gláucia passou na sua frente e abriu primeiro dizendo que, se quisesse voltar ela teria que abrir. Então o acompanhou até o portão e despediram com um abraço bem apertado. Ah, nesta noite ela não usou o presente que ganhou do jovem, deixou para quando fossem sair em outra ocasião. Ele pensou que isso seria perfeito.
Gustavo chegou em casa por volta da 23 horas, ninguém desconfiou de nada. Beleza! Pensou ele animado. Porém, quando começou arrumar seu material para o dia seguinte descobriu que tivera perdido uma prova naquela tarde. No horário que tinha saído de casa para procurar a casa de Gláucia acabou esquecendo do compromisso. Aliás, ele já tinha esquecido na noite anterior enquanto pensava onde estaria o endereço dela. Na manhã seguinte saiu cedo de casa a fim de tentar resolver esse pequeno problema. Procurou o professor que aplicou a prova, e com uma situação fictícia contada pelo rapaz tentou convencer o mestre de encaixá-lo em uma outra turma, a fim de fazer a tal prova, sem que isso prejudicasse suas notas, que sempre foram boas. O professor concordou com o pedido sem muita hesitação, e combinou a data que seria aplicada a prova na turma da noite. Muito bem, com o problema resolvido voltou a pensar no possível encontro que teria no final de semana.
Finalmente o sábado amanhecia para seus desejos masculinos, o encontro teria que acontecer. Esperou os ponteiros do relógio apontar para as nove horas e assim poder ligar para a moça. Ansioso por isso, ligou a primeira vez para um número errado, e a ligação caiu em uma clínica veterinária, logo pensou que tivesse sido enganado por ela. Procurou manter a calma, digo, procurou ficar calmo, e tento novamente, desta vez deu certo. Ela mesma atendeu a ligação.
-- Alô!
-- Alô, por gentileza, eu gostaria de falar com a Gláucia.
-- Quem está falando? Ela perguntou com a intenção de descobrir quem era.
-- É Gustavo, por um acaso ela está?
-- Deixe-me pensar...É, está sim. Você quer falar com ela?
-- Sim, eu gostaria muito.
-- Vou pensar se a chamo ou não.
-- Ei, é você Gláucia?
-- Claro que sou eu, tudo bem com você?
-- Estou ótimo agora, me diga uma coisa, o que você vai fazer hoje à noite?
-- Até agora não tenho nada programado, por quê?
-- Gostaria de ir ao cinema comigo?
-- Adoraria. E tenho uma boa notícia, vou usar o seu presente.
Com esta palavra positiva marcaram um horário e o rapaz foi buscá-la para passearem juntos. A mãe de Gustavo ficou estranhando o esmero com que se arrumava para sair.
-- Vai sair meu filho? Perguntou sua mãe curiosa.
-- Vou sair com alguns colegas da faculdade para um aniversário de 15 anos da irmã de um outro colega de classe.
-- E você vai ao tal aniversário sem usar gravata?
-- Que é que tem?
-- Vai ter baile não vai?
-- É, vai.
-- Então trate de usar uma bonita gravata. Mas diga-me uma coisa: a Verônica vai também ao baile, não vai? Afinal de contas, depois de todos esses anos ela deve conhecer seu colega não é mesmo?
Diante da pergunta desconsertante de sua mãe teve que pensar rápido. Como Verônica era sua namorada tinha que responder com segurança para não despertar dúvidas.
-- Não mãe, infelizmente ela não conhece, e se eu a levar com certeza ficará meio deslocada com todo o pessoal querendo festar, e eu quero dar atenção para todos eles.
-- Está bem. Tome cuidado e divirta-se, mas... Você quer que eu ajeite melhor esse nó da gravata? Está meio torta.
-- Eu agradeceria muito mãe, não tenho muita prática com essas coisas. Depois de tudo bem organizado e sem nenhuma dúvida quanto ao destino de sua saída, era hora de partir. Pegou seus documentos, um lenço, porque isso é sempre bom carregar numa hora dessas, então entrou no carro e partiu rumo à casa de Gláucia.
postado por Oiram Bourges Segunda-feira, Março 27, 2006
CORAÇÕES PERTURBADOS
Cap. 1
Durante o desfile de Sete de Setembro de 1982, Gláucia observava a multidão enquanto esperava seu pequeno filho desfilar junto com seus colegas pela escola. Acompanhada de seus pais e irmãos, estava em pé nas arquibancadas em frente a uma fábrica de ferragens abandonada, bem perto do centro da cidade. Vira passar todos os soldados da aeronáutica, do exército, da polícia militar e do corpo de bombeiros, além dos vôos de helicópteros a aviões. A festa estava bastante animada e com muitas cores, apesar de estar frio e nublado naquela manhã. De repente surgiu no começo da pista do desfile a escola onde seu filho estudava, foi uma empolgação só na sua família, todos gritando o nome do menino bem alto. Evidente que tinha mais pessoas gritando, mas a algazarra feita por eles era bem maior. Isso chamou a atenção de uma porção de gente, e também de um bonito rapaz que estava na mesma arquibancada, porém dois degraus abaixo.
Os alunos (incluindo Jonas, o filho de Gláucia) da escola mais antiga da cidade iam passando com seus uniformes de cor Azul Royal, e usando na cabeça chapéus confeccionados com papelão, e coloridos com as cores da bandeira nacional, e todos, ou quase todos que estavam na festa gritavam os nomes de seus filhos durante o desfile. Já o rapaz ficava de costas para o desfile, estava somente olhando para a jovem dos degraus acima. Ao acalmar os ânimos do pessoal, ele resolveu subir os degraus que os separavam. Chegou do lado da moça e começou a conversar:
-- Deixe-me apresentar-me, meu nome é Gustavo. E você?
Estava surpresa com a abordagem, pois nem tinha reparado sua presença na multidão, mas com um grande sorriso respondeu:
-- Me chamo Gláucia...
-- Diga-me Gláucia, você veio ver alguém desfilar, ou apenas veio ver o desfile?
-- Não, vim com minha família admirar meu filhinho em seu primeiro desfile.
-- Filho? Acho que vou sair para evitar complicações com seu marido...
-- Não, espere! Não sou casada.
-- É viúva?
-- Não, na verdade sou mãe solteira.
-- Ah, sei, sei.
Aquilo soou estranho para Gustavo, até aquele momento não tinha conhecido ninguém nessas condições, mas continuou a conversar devido a sua empolgação. Mas tinha que se apressar para conseguir mais informações sobre ela. O desfile já estava terminando.
-- Poderia me passar seu endereço, ou telefone?
-- Apenas o endereço, ainda não temos telefone.
-- Tudo bem, então anoto o meu neste papel, e quando quiser, espero que seja logo, ligue para mim.
-- Não tem problema?
-- De maneira alguma.
Uma semana mais tarde Gláucia resolveu ligar para Gustavo, queria conversar um pouco, tentar conhecer mais sua pessoa. Ao ligar teve uma recepção não muito agradável por parte de uma senhora com voz um pouco rouca e nem um pouco calorosa. Deixou passar mais uns dias e resolveu ligar novamente. A mesma mulher atendeu ao telefonema.
-- Quem fala? Perguntou a senhora.
-- Quem está falando é Gláucia, eu gostaria de falar com Gustavo, seria possível?
-- Desculpe minha jovem, mas o Gustavo não poderá atendê-la.
-- E quando posso ligar novamente?
-- Na verdade eu pediria para que você não ligasse mais para este número. Obrigada!
Diante deste pedido tão "amistoso" achou melhor não tentar de novo para evitar um futuro transtorno em sua própria vida.
Mais alguns dias se passaram, e Gustavo resolveu procurá-la para passear um pouco. Tomou a decisão de que deveria fazer isso mesmo, passou a procurar o endereço anotado em um pequeno pedaço de papel, mas não lembrava qual era. Tirou um dia para fazer uma faxina em seu quarto a fim de encontrar o tal papel. Estava cansado e começando a ficar desanimado. Foi aí que avistou uma pilha de cadernos e livros guardados num canto de sua escrivaninha. Ainda não havia procurado lá, pensou. Ansioso para encontrar logo acabou derrubando tudo pelo chão do quarto. Vários papéis se espalharam, alguns deles inclusive acabaram manchando ao cair em cima de umas gotas de vinho que voaram quando o copo foi atingido pelos livros. Teve sua tarefa interrompida por este acidente, foi obrigado a pegar um pano e uma pequena pá para conseguir juntar os cacos de vidro do copo. Sua mãe já estava se dirigindo a seu quarto interpelar sobre o ocorrido. Visto que o cômodo estava por uma grande desordem indagou se tinha acontecido um terremoto ou era uma enorme faxina. Ao saber que se tratava de uma organização sentiu-se melhor. Ela não sabia, mas o motivo dessa arrumação foi por causa de um endereço.
A paciência do rapaz estava se esgotando, e com raiva de si mesmo por ser uma pessoa relaxada e displicente. Resolveu então tentar por mais uma vez encontrar o tal papel. Cercado por caixas, livros, revistas, e todas as quinquilharias do seu guarda-roupa espalhadas pelo chão, não conseguiu achar nada de seu interesse naquele momento. Aborrecido por não ter alcançado seu objetivo, decidiu então guardar tudo aquilo nos devidos lugares. Talvez se tudo tivesse mais organizado, essas coisas não acontecessem, pensou consigo mesmo. E como num passe de mágica, durante a arrumação acabou encontrando o papel com o endereço. Por pouco não foi jogado fora, pois estava crente que tinha anotado em uma folha de caderneta, ou algo assim, mas tinha anotado em um pequeno guardanapo. De qualquer maneira, estava feliz por ter encontrado. Tratou de arrumar tudo de novo, mas agora tentou organizar suas coisas da melhor maneira possível.
Já estava no meio da tarde quando terminou de arrumar o quarto. Estava um pouco cansado, afinal, organizar um monte de coisas espalhadas não é fácil. Resolveu tomar um banho para tirar o pó e o suor de seu corpo. Enquanto tomava banho ficou pensando em sair de casa mais cedo para descobrir onde a mulher de seus pensamentos morava, e depois iria para a universidade. Gustavo fazia medicina, e faltava apenas três meses para sua formatura, aquilo fazia seus pais sentirem um grande orgulho de seu filho. Realmente era tudo o que queriam para ele. Não era, na opinião do rapaz a melhor coisa para ele, mas como estava sem decisão no momento da escolha do curso quando se inscreveu no vestibular, acabou marcando medicina mesmo, assim agradaria seus pais. Porém, o tempo se passou, e agora que estava no final do curso, ou quase, seria besteira abandonar. Pensava na sua vida depois de se formar, teria que fazer residência em algum hospital. Sabia da dificuldade de conseguir na cidade onde sempre morou, devida concorrência que teria com os outros recém formados. Também sabia de uma certa facilidade em conseguir uma vaga num hospital no interior do Estado, onde seu tio era um médico respeitado, e um dos diretores do hospital, sem dúvida resolveria este pequeno problema burocrático.
Isso era bom pela facilidade em conseguir atuar na área onde estudou. Sua dúvida estava em encontrar uma maneira de esquecer de Gláucia, estava difícil conseguir tal feito. O jovem não conseguia entender como ela ficou tão marcada em sua memória, sendo que só tinha visto por uma única vez apenas. Quando terminou o banho se enxugou rapidinho e se vestiu com um traje diferente, digamos, melhor do que costuma usar. Elogiado pela mãe por ter escolhido aquela roupa sentiu-se motivado em procurar pela casa da moça. Saiu de casa sem maiores explicações, na verdade ele não queria dar nenhuma dica do que iria fazer, pois Gustavo já tinha uma namorada, e esta tinha o apoio total de sua mãe. Portanto não aprovaria estes encontros escusos.
Saiu com seu carro à procura do endereço, estava animado e ao mesmo tempo apreensivo pelo momento. Não sabia o que poderia acontecer quando a encontrasse novamente. Quarenta minutos mais tarde acabou por encontrar a casa dela. Era uma casa de aparência simples, mas parecia ser bastante aconchegante. Desceu de seu carro e bateu palmas, esperou por alguns segundos e resolveu repetir a seção. Pensou ser um endereço errado, mas resolveu esperar para conferir. Quase um minuto depois um senhor veio até o portão perguntar o que queria. Com o pedido para ver Gláucia esperou por mais algum tempo na frente do imóvel, estava um pouco ansioso. Realmente falando, estava bastante ansioso. Ela surgiu na janela da sala para ver quem era, mas não conseguiu reconhecer a pessoa. Decidiu então verificar quem era. Chegando ao portão atendeu o rapaz sem conseguir reconhecer, mesmo assim foi bem simpática.
-- Como está você Gláucia, tudo bem?
-- Tudo, mas me desculpe, não consigo me recordar de você.
-- Eu sou o Gustavo, aquele do desfile de Sete de Setembro. Consegue lembrar agora?
-- Mas claro, agora sim. Puxa que bom vê-lo por aqui. Há quanto tempo heim!
-- Pois é, mas eu esperei seu telefonema até agora, e se não viesse te procurar nunca mais iria falar com você pelo jeito.
Para evitar conflitos entre ele e sua mãe Gláucia omitiu sobre tal informação mudando o assunto.
-- Mas me diga, por um acaso você tem compromisso hoje à noite?
-- Por que? Perguntou Gustavo.
-- Porque hoje é meu aniversário, e vamos fazer uma reuniãozinha familiar. Portanto, convido a ficar comigo e comemorar meu dia. Topas?
-- Topo, mas eu só fico se você vier comigo agora dar uma voltinha.
-- Mas aonde?
-- Ah, é um passeio,
-- Tudo bem.
postado por Oiram Bourges Quarta-feira, Março 22, 2006
|