O Escrevinhador


Cap. 3

Dia seguinte; ambos mais calmos. Conseguiram então marcar um encontro para uma conversa. Em um horário e lugar determinado por Gustavo ela chegou trazendo o objeto que causou a pequena discussão entre eles. Contudo, havia ainda entre eles um ar de paixão e cumplicidade. Mesmo sabendo que iriam tratar de um assunto complicado. Então, como ele chegou primeiro, aproveitou para fazer os pedidos, pois tinham marcado para conversarem em uma lanchonete.

Dado o tempo marcado Gláucia chegou abatida, quase não tinha vontade de falar. Sentia um nó em sua garganta. Assim mesmo ainda esboçou um sorriso para não ficar nítida a mágoa que sentia de seu amante. Além de dar um leve beijo nos lábios dele. O nervosismo era bastante perceptível entre os dois. Não sabiam se ficavam segurando suas próprias mãos para não demonstrarem a impaciência que estavam para resolver logo este assunto tão penoso, ou se pulavam esta parte da conversa e tratavam de se abraçarem como antes, ou se exporiam tudo num só assunto para decidir o que fariam de suas vidas. Ninguém sabia explicar, mas existia naquele momento um clima tenso. Era perceptível que ambos queriam se abraçar, mas ao mesmo tempo acontecia um afastamento... por parte de Gustavo.

Diante das dificuldades encontradas sobre quem começava a conversa, Gláucia resolveu se adiantar com a entrega do tal lenço. Foi a maneira que encontrou para romper a barreira invisível que dividia os dois, mesmo estando muito perto um do outro. E ainda pediu desculpas pela demora na entrega do objeto, motivo este que, para ela era simplesmente insignificante, mas que gerou um grande problema para os dois. Com uma conversa sem muito entusiasmo começaram, e também, se prolongaram até que a moça ouviu uma novidade nada boa por parte dele, e que preferiria nem ter ouvido.

Tratava-se de uma viagem à Paris que seus pais o tinham presenteado por ter se formado em medicina. Mas a péssima notícia para Gláucia ainda estava por vir. Desconfiando de que tudo era um estratagema para um rompimento na relação ela se adiantou:
-- Tem algo a mais para me contar? Perguntou ela enquanto espremia suas próprias mãos na tentativa de descontar em alguma coisa seu nervosismo.
-- É, tenho. Quando voltar de viagem vou morar no interior do estado, para fazer residência na hospital onde meu tio é um dos diretores, lembra? Falando como se ela estivesse esquecido que isso aconteceria um dia.
-- Claro que lembro, mas você disse, em outro momento, que tentaria fazer com que desistissem dessa idéia, e que depois tentaria algo por aqui mesmo. Disse assim com uma voz um pouco trêmula, pressentindo que tudo acabaria entre eles.
-- É, você tem razão. Mas resolvi que por lá será melhor para mim. Além do quê, sinto que, eu e minha namorada estamos nos dando bem ultimamente. Então pensei que poderíamos dar um tempo em nossa relação para eu decidir sobre minha vida e... creio que seja isso. Sabe, ando muito confuso. Tenho muitas cobranças na vida, e em todos os sentidos. Explicou assim Gustavo gesticulando muito e sem olhar para a moça.
-- Então quer dizer que eu não sou importante para você? Eu não passei de um passa-tempo, ou que eu só arrumei confusões para você? É isso? Com os olhos marejados e sua face levemente rubra assim perguntou.
-- Não é assim. Não foi assim. Não desta maneira como você está expondo. Foi bom. Você é importante, mas tenho que trilhar meu caminho... olha Gláucia, preciso ir agora antes que as coisas fiquem complicadas demais para conversas. Espere por mim, pois um dia, quando você menos pensar, eu estarei te esperando na frente da tua casa com um ramalhete de belas flores, e com uma boa notícia. Mas para que isso aconteça é preciso ter paciência e compreensão da tua parte. Porém, agora preciso ir mesmo. Até um dia. Despejou desta maneira estas palavras pesadas como chumbo sobre Gláucia. Então se levantou de perto dela e deu um outro leve beijo nos lábios da moça, que estava aturdida e sem reações para dizer qualquer coisa naquele instante.

Assim sendo ele se dirigiu até o caixa, pagou a conta, olhou mais uma vez para a moça, que começava a chorar, e partiu com pressa, decidido, e sem olhar para trás. Gláucia procurou se controlar, mas foi em vão. Caiu em um choro contido, com receio de chamar a atenção das outras pessoas que na lanchonete estavam naquele momento. Ela chorou de medo, pela dor da perda, pelo pouco caso feito dela, de ter seu orgulho ferido, e ainda, chorou por ter perdido seu amor para sempre. Pelo menos foi assim que ela pensou naquele momento. Sentia-se arrasada. Logicamente que não era para menos, pois ela foi a um encontro para conversar, esclarecer alguma dúvida, e não para terminar um relacionamento. Por mais que não fosse o mais certo dos relacionamentos. Afinal de contas, ninguém gosta de perder.

Após um tempo conseguiu juntar forças para se levantar de onde estava sentada e foi embora para casa, cabisbaixa, sem ânimos, sem expressão na face, sem vida. Aquele dia para Gláucia era o mesmo que o fim de sua existência. Mas com o passar do tempo este pensamento foi passando, como ela já tivera uma outra desilusão amorosa no passado, não foi muito difícil de acostumar com a idéia de ter que ficar sem alguém para dividir confidências ou trocar carícias.

Para o cotidiano Gláucia voltou. Desanimada e com poucos sorrisos ela desempenhou sua função na empresa onde trabalhava pelos dias conseguintes. Com suas colegas apenas conversava o essencial enquanto enfrentava esta situação. Procurou se preservar quanto aos comentários que poderiam, e certamente seriam feitos a respeito do ocorrido se ela tivesse dado liberdade para esses assuntos. Afinal de contas este é um tema que dá margens para comentários ferinos, inflamados, rancorosos, e logicamente, desnecessários. E tudo o que ela não precisava no momento era dessas coisas. Contudo, a tristeza de quando em quando lhe castigava com as doces lembranças em alguns períodos do dia, principalmente naquelas horas onde a agência onde trabalhava não tinha clientes para atender, na volta para casa, após o término do expediente, e na hora de dormir. Momento este que, aliás, lhe tirava de seus olhos gotas de lágrimas. Mas tal sentimento era amenizado depois que recebia um beijo de boa noite de seu filho. Além do que, como chegava sempre cansada do trabalho era relativamente fácil pegar no sono depois de um agradável banho.