Cap. 4
O tempo foi passando e Gláucia contava os dias, as semanas e os meses a espera de alguma notícia, ou qualquer coisa que lhe animasse o espírito. Até que certa vez recebeu uma carta de Gustavo dizendo que estava tudo bem, apesar da falta que sentia dela. Porém, estava cheio de trabalho no hospital onde estava fazendo residência, e o pouco tempo que tinha de descanso recebia visitas, ora da namorada, ora dos pais dele. Mas que no fundo sentia falta mesmo era daquela que tinha conhecido há pouco tempo, ou seja, da Gláucia. E que fazia planos para o futuro junto com a amante, dar um irmãozinho para o filho dela e coisas do gênero. Entretanto, tudo isso não passava de um consolo para a moça, pois esta sabia que a almejada união entre eles dois seria praticamente impossível.
Ela, ainda cultivando em pensamentos um mundo maravilhoso para sua própria vida, logicamente em companhia do rapaz, aguardou por receber mais dessas cartas. Porém, fazia de tudo para que não criasse expectativas, justamente para evitar mais uma decepção amorosa. Mas naquela noite Gláucia dormiu com um sorriso estampado na face, e com o coração batendo sem moderação não se importou se iria se decepcionar ou não com aquela situação onde se encontrava.
Os dias seguintes passavam de maneira morna, sem emoções. Pelo menos para ela, que mesmo sem querer cultivar os desejos de uma união com Gustavo era bombardeada por pensamentos de amor eterno e coisas do gênero. No entanto, não deveria se entregar a devaneios, pois isto certamente a afetaria em seu desempenho profissional. E se alguma coisa errada acontecesse em seu emprego, e que ela fosse a culpada, poderia perder alguns benefícios, profissionalmente falando. E tais benefícios lhe caiam muito bem no final do mês. E se, muitos outros erros acontecessem, devido a seus pensamentos sem fundamentos, poderia até, perder seu cargo na empresa, ou até mesmo o emprego. Coisa que, aliás, seria desastroso no caso dela, pelo fato de ainda ter um filho pequeno para criar.
Pensando desta maneira preferiu se dedicar ao emprego e deixou que o destino fizesse o resto por ela. E assim, mais um tempo a vida, por assim dizer, passou por ela. Sem grandes emoções, ou algo que lhe desse um pouco de prazer. Porém, sabendo-se que ninguém vive perfeitamente bem sem as paixões, emoções ou algo que nos dê um tempero em nossas vidas, ou simplesmente algo que diferencie de nossos cotidianos, ela, depois de recusar muitos outros convites de suas colegas de profissão para ir a uns poucos bares onde as mulheres eram vistas apenas como clientes do estabelecimento, e não como mulheres de vida fácil, resolveu aceitar, ainda que, com um pouco de receio, pois nunca fora a um lugar desses.
E então, depois de combinar o local e o horário com suas colegas no final do expediente de sexta-feira, e aproveitando que nada acontece em sua casa, Gláucia rumou com pressa, toda produzida e ansiosa até o bar. E logicamente foi de carro, pois nesta época ela já estava em condições de possuir seu próprio automóvel. Além do mais, não saberia que horas voltaria para casa. E, ainda, não saberia se alguma delas lhe daria carona de volta. Não que fossem egoístas ou coisa parecida a ponto de negar-lhe uma simples carona, mas como também eram solteiras poderiam encontrar seus pares por lá. Coisa facilmente aceitável por Gláucia, pois ela também se encontrava na mesma situação que suas colegas, Marisa, Shirley e Bianca estavam.
As horas passaram e as meninas estavam em festa. Os flertes aconteciam naturalmente entre elas e os rapazes que por lá se encontravam. Até que, num certo momento, o mais bonito deles, o que tinha pinta de conquistador se virou para a direção de Gláucia e deu um largo sorriso. Os amigos, ou apenas conhecidos do rapaz, não sei dizer, o incentivaram para que fosse conversar com a moça. E as colegas da Gláucia a incentivavam para que fosse amistosa neste encontro.
Ela, empolgada com a situação o aceitou ao seu lado na mesa onde estava para uma conversa. Tudo estava indo incrivelmente bem. Todos se juntaram para uma grande conversa na mesa. Tanto que trouxeram outra mesa e tantas outras cadeiras para aumentar o conforto desta mútua aproximação. Bebidas foram pedidas e petiscos deram um tempero especial na conversa. Horas se passaram e a empolgação dos times, tanto do lado feminino quanto do masculino cresceu. Alguns dos casais já se encontravam abraçados, ou de mãos dadas. As moças estavam radiantes, e os rapazes excitados com o encontro casual.
Passava das três horas da madrugada e os planos de prolongamento da diversão começaram a ser expostos ao grupo. Idéias de amanhecer o dia em algum lugar qualquer também surgiram. Idéias essas não aceitas pelas moças, obviamente, pois eram ousadas demais para o ponto de vista delas. Mas acabaram topando sair daquele bar para passarem em um outro bar, a fim de pegar mais uns amigos, que supostamente lá estavam. Depois iriam a uma lanchonete para concluir a noitada em grande estilo. Pelo menos para o pensamento delas a noite com este final seria perfeito.
Contudo, para eles, os rapazes, isto era apenas o começo da festa. Mas permaneceram comportados, sem mostrar suas reais intenções. Desta forma poderiam conquistar a confiança delas para que realizassem seus desejos. Mesmo que isso fosse difícil. Afinal de contas isto era uma conquista por parte deles, e quanto mais difícil fosse a conquista, melhor seria o prêmio no final das contas.
Então, antes de saírem para o outro bar, alguns dos rapazes foram ao sanitário. Até aí tudo bem, nada demais. Porém, ao voltarem pareciam diferentes. Mas isso era de uma sutiliza incrível que quase ninguém conseguia perceber. E assim mesmo pensavam que fosse efeito do álcool ingerido por eles. Perfeitamente normal para os ambientes de bar. Se bem que, não eram só eles que estavam levemente alterados. Gláucia e suas colegas também se encontravam um pouco embriagadas. E, como festa é festa, nem ligaram para a situação. Aproveitando o embalo pediram uma bebida para cada um dos que estavam no grupo. Para consolidar uma nova amizade, diziam eles. Todos concordaram. Sendo assim, beberam todos numa virada só, como se fosse um grande brinde.
Com as pernas amolecidas e as cabeças rodando sem controle, mas ainda assim com animação, Gláucia e as colegas cederam aos insistentes pedidos para acompanhá-los na saída pela noite até verem amanhecer o dia. Como tinha apenas dois carros disponíveis, os dois veículos inclusive foram neles que todos se amontoaram e partiram em busca de farra. Logicamente que nenhuma das moças poderia dirigir seus respectivos automóveis, pelo fato da embriaguez. Missão incumbida aos rapazes que soubessem guiar, claro. No entanto, esta era uma coisa difícil de fazer, pois todos se encontram na mesma condição. Mas, como não queriam demonstrar fraqueza e perder a chance de se aproveitarem das moças, fizeram pose de forte e saíram pela estrada a fora atrás de diversão.
Lá pelas tantas, quando o céu começava a clarear, os sentimentos esquecidos pela bebedeira voltava na memória de Gláucia como se fossem pedras atingindo uma vidraça. E isso também valia para a situação em que se encontrava, cheio de pessoas desconhecidas e socadas no mesmo carro. Melhor dizendo, o carro dela entupido de gente estranha, e sendo conduzido por uma pessoa que jamais havia visto na vida. E pior de tudo; suas colegas estavam em outro carro. Mas para não entrar em pânico, coisa que a qualquer momento isto poderia acontecer. Resolveu então conversar com os rapazes para tentar um entendimento, pois para os pensamentos da moça, eles, que estavam com jeito de drogados, queriam fazer algo de ruim com ela.
Humberto, o que dirigia o carro no momento estava alucinado. Apenas a mão direita estava ao volante, a esquerda estava para fora do carro. E aproveitando a barreira natural que o vento impunha ela fazia movimentos ondulatórios, como que imitando as ondas do mar. Já os outros dois, o Carlos Alberto e o Almir, riam de qualquer coisa que acontecia. Até das coisas que nem aconteciam. Estavam completamente entorpecidos, sob efeito das drogas que usaram no banheiro, antes de sair daquele primeiro bar. Se bem que tudo aconteceu naquele primeiro bar, coisa que, aliás, foi o único, porque o tal segundo bar nem aconteceu. Aquilo foi só um estratagema para enganá-las. E pela lanchonete, nem por perto passaram.
Quanto às colegas de Gláucia, também não estavam com os pares considerados ideais, ou aqueles que procuravam, mas se deram melhor na escolha dos rapazes em um único aspecto, eram tolos, pois eram mais tranqüilos e mais fáceis de dispensá-los. E em pouco tempo elas já estavam livres da rapaziada, que também estava amalucada pelo uso das drogas. No entanto, não procuraram saber da colega, que estava sozinha com três desses malucos no próprio carro. Elas simplesmente foram para suas respectivas casas a fim de descansarem. Afinal de contas ficaram praticamente 24 horas acordadas.
Porém, a Gláucia não tivera a mesma sorte que de suas colegas. Ela ainda se encontrava no mesmo veículo, e com os três rapazes. Sendo que dois deles ficavam rindo, desmedidamente de suas próprias faces, que se derretiam e pingavam em seus colos, segundo o imaginário deles. Logicamente efeito causado pelas drogas usadas anteriormente. E um terceiro, e mais problemático, ao volante. Que de quando em quando acreditava voar pelos céus com o braço esquerdo para fora do carro. Os gritos que a moça dava para alertá-lo do perigo que corriam não adiantavam em nada, pois ele estava com o olhar perdido, e procurando desesperadamente uma fuga da realidade onde vivia. Então se imaginava um pássaro, ou qualquer coisa que pudesse voar.
Lá pelas tantas, quando tudo e todos não se agüentavam mais ficar dentro do carro Humberto, aquele que estava dirigindo, ou melhor, voando pelos céus, não conseguiu fazer uma curva e saíram da pista com o automóvel caindo numa grande valeta. Por sorte ninguém se machucou gravemente. Esta situação gerou apenas alguns arranhões nos ocupantes do veículo. A pior parte mesmo ficou para o veículo, todo amassado, e ainda, com mais da metade das parcelas das prestações para Gláucia pagar. E, além disso, tinha um outro problema, que consistia em onde encontrar um guincho naquela hora para retirar o carro daquele lugar. Sendo que não tinha um telefone público para ligar e avisar seus conhecidos. E também tinha um outro problema, coisa que talvez fosse o pior de todos, como: o que falar para seus pais sobre este incidente.
Apesar de toda esta confusão desnecessária ela conseguiu chegar a sua casa sã e salva. Mas claro, foi de táxi. Seu carro foi para o pátio de uma empresa de guincho, que conseguiram localizar horas mais tarde, depois que o dia havia amanhecido por completo. Entrou em casa envergonhada bem no momento do café da manhã. Não sabia o que dizer para sua família. Procurou se explicar, mas não encontrou as palavras para o que ela havia feito. No lugar disto, vieram as lágrimas. Sentia-se culpada pelo ato irresponsável e infantil que cometera. Mesmo sabendo que poderia contar com a compreensão e ajuda de seus pais para o fato ocorrido preferiu se isolar em seu quarto. Então passou o resto do final de semana trancada e chorando.
postado por Oiram Bourges Quinta-feira, Junho 22, 2006