O Escrevinhador


CORAÇÕES PERTURBADOS
Cap. 6

Gláucia estava apreensiva, não sabia direito o que fazer para conter o nervosismo repentino. O trabalho dos outros dias praticamente se acumulou por que seus pensamentos estavam acompanhando os de Gustavo. Eis que surgiu uma idéia um tanto absurda de viajar até a cidade onde seu eterno namorado estava morando para prestar auxílio no que pudesse ser útil. Mas ela já não conseguia agir com razão. Estava sim, agindo através da emoção. Coisa que, aliás, na maioria das vezes não é de grande valia, principalmente quando acontece um caso estranho e sem explicação como este.

Chegou em casa, depois do expediente, totalmente eufórica. Queria contar à mãe sobre seus planos e sobre o que aconteceu com seu namorado. Vamos considerar que sejam realmente namorados, pelo menos para ajudar no entendimento da história. Contudo, assim que chegou em casa percebeu que se contasse seus planos poderia não dar certo. Então pensou, e pensou, e decidiu que se contasse não daria certo, pois certamente, tanto pai quanto mãe, fariam com que a moça desistisse desta idéia. Que vamos e venhamos, um tanto maluca. Mas como boa mãe que era, comunicou a Jonas, seu filho, sobre o que pretendia fazer para salvar a vida de Gustavo. E como Jonas também gostava do rapaz aprovou a idéia da mãe.

No dia seguinte acordou cedo e saiu para trabalhar não menos eufórica que quando chegou em casa no dia anterior. Como ela estava com horas de sobra no emprego, de tanto trabalhar além do horário previsto, a primeira coisa que fez assim que entrou no local onde trabalhava foi pedir uns dias de folga. A gerente deu-lhe uma resposta negativa dizendo que naquele momento não poderia conceder os tais dias de folga por que a agência passaria por uma reforma administrativa, e todos os funcionários precisariam se adaptar a essas reformas antes do período de férias de final de ano.

Inconscientemente pediu então para que lhe dessem a conta, pois com ou sem reformas administrativas ela iria tirar uns dias de folga. Sentindo-se ameaçada com este aviso, e com receio de perder a melhor funcionária, a gerente abriu uma exceção. Deu-lhe uma semana para descansar. A responsável pela agência sabia que se perdesse Gláucia por uma simples formalidade burocrática, coisa que, aliás, sua funcionária já estava interada de tais reformas, poderia causar àquela filial da empresa uma grande complicação. E logicamente não conseguiriam alcançar a meta, porque seria muito difícil encontrar uma substituta à altura desta que era seu braço direito.

Feliz e radiante ficou a moça ao saber que seu pedido tinha sido aceito pela gerente. Porém, continuava preocupada com a situação de Gustavo. E ainda, tinha planos para levar Jonas, o filho dela, junto nesta viagem. Acreditava que poderia ser útil em qualquer momento desta aventura maluca. Sabia que seria perigoso para ambos os três tal maluquice, mas a força de vontade de salvar seu amado seria um prêmio sem igual. E com seu carro, que já estava consertado, pegou a estrada com Jonas à tira-colo, e logicamente que mais umas poucas peças de roupa para não atrapalhar em nada seus planos.

Saíram os dois sem muita demora e sem muitas explicações, Gláucia disse apenas que sairia por um breve período para descansar. Disse ainda que estava saturada do serviço, e uns dias de folga vieram à calhar. Na verdade não quis dar muitos detalhes da viagem para seus pais, pois acreditava que poderiam impedir de cometer esta loucura. E esta era uma coisa que certamente fariam. Mesmo sem saber do que acontecia com o rapaz lá na outra cidade sabiam que a atitude da filha não era a mais sábia para aquele momento.

Apesar de ela não ser muito boa em inventar histórias conseguiu convencer os pais sobre a viagem de descanso. Pelo menos se fizeram acreditar que tinham acreditado na história. Digo, apenas a mãe da moça se fez acreditar, pois sempre consegue enxergar além dos outros em ocasiões como esta. No entanto, não procurou se ater nos detalhes do falatório, observou apenas as reações corporais de sua filha. Mãos geladas, olhares perdidos e uma leve gagueira acompanhavam as palavras de Gláucia. O nervosismo era nítido, mas só aqueles que prestam atenção nos sinais conseguiam perceber que algo errado ia acontecer.

Ao final das despedidas houve muitos desejos de boa viagem, atenção na estrada e coisas deste gênero. Os beijos e abraços vieram em seguida. Tudo para que eles tivessem realmente uma boa viagem. Para finalizar com o conhecido e maçante ritual, dona Helena, a mãe da moça, disse-lhe ao ouvido, e com um pouco de apreensão, para tomar muito cuidado, tanto na estrada quanto no lugar para onde iriam viajar. Ela não sabia ao certo o que acontecia, ou o que ia acontecer, mas sentia que coisa boa não era.



Cap. 5

Semanas se passaram e Gláucia, mais tranqüila pelo que lhe aconteceu, mas não menos traumatizada. Então ela recebeu uma ligação de Gustavo. Uma grande e agradável surpresa para compensar o ocorrido. Ele ligou para conversar um pouco, ver como estavam as coisas com sua amada, ainda que não se deixe perceber isto. Na verdade era uma desculpa para conversar com a moça. E também fazer um desabafo, pois não estava tendo melhores dias por lá, na cidade onde ele estava fazendo a residência. Coisas inexplicáveis andavam acontecendo para ele. E tais coisas estavam acontecendo para prejudicá-lo no hospital.

Havia conflitos e corrupções entre os funcionários da instituição. Coisas que, aliás, pareciam convergir para Gustavo. Não que ele fosse culpado do que acontecia por lá, mas estavam criando uma situação na qual o rapaz se encrencaria a ponto de se tornar culpado por todas as coisas que estavam acontecendo. E o tio, que era um dos sócios da empresa e responsável pela parte comercial da mesma sabia que a situação de seu sobrinho não estava muito boa. Sabia também que esta situação iria até piorar. Quanto a Gustavo, poderia ser inocentado tranqüilamente se o seu parente quisesse, mas aí o esquema de suborno que tinham com as autoridades policiais, com empresas de diferentes ramos comerciais, e com alguns funcionários da prefeitura viria à tona. E se isso acontecesse mesmo, uma porção de gente importante acabaria presa.

Era um esquema grande que dependia da conivência de uma pessoa apenas. E tal pessoa teria de fazer vistas grossas para o problema que estourava na mão de uma outra pessoa. Sendo que esta era totalmente inocente, e ainda, possuindo um grau de parentesco. Uma situação de difícil decisão, mas o tal esquema não podia nem devia ser quebrado pelo fato de existir um familiar envolvido. Além do mais, Gustavo fora convidado para atuar no hospital justamente para fazer parte, mesmo que sem saber, das falcatruas. A intenção do tio do rapaz era dar às autoridades um culpado, e assim, livrar os integrantes desta rede de corrupções da prisão.

Uma verdadeira crueldade para quem não fazia parte desta sociedade escusa. Logicamente que nem todas as pessoas que trabalhavam no hospital eram assim, existiam aqueles que faziam o bem, e que realmente mereciam estar naquele local. Embora os que trabalhavam direito não tinham influência alguma nas decisões empresa, ou seja, eram apenas funcionários. Apenas cumpriam ordens e cuidavam dos doentes. No entanto, alguns dos médicos que atendiam este hospital no passado foram escolhidos a dedo pela organização e tentados para participar como membro desta outra equipe. Claro que era para fazer a linha de frente, ou seja, ser o bode expiatório para, se no acaso, alguma coisa desse errado.

Obviamente que nenhum dos profissionais íntegros aceitaram. E para que tais profissionais não revelassem os segredos deste grande esquema era tirado de circulação, literalmente falando. E após algumas tentativas frustradas e arriscadas de encontrar alguém tolo o bastante para aceitar a missão de levar a culpa. Esta organização resolveu adotar outro método, passou a se utilizar das pessoas sem que elas soubessem que estavam fazendo parte de um negócio muito lucrativo e altamente perigoso. Bom, a parte muito lucrativa ficava para os sócios, e parte altamente perigosa ficava para aquele que não sabia de nada.

Como as provas dos crimes de extorsão, compras de corpos dos necrotérios e das empresas de luto que atuavam junto a prefeitura, mais subornos e alguns assassinatos poderiam ser facilmente encontradas pela polícia da cidade, que, aliás, também fazia parte do esquema, não dava chance nem tempo do culpado se defender das acusações. E quando o escolhido para ser culpado conseguia um advogado para o defender era sumariamente executado na própria delegacia pelos outros detentos. Sendo que estes recebiam uma contribuição monetária pelos préstimos oferecidos, mesmo que às vezes tais serviços sujos fossem feitos a contragosto.

Assim que Gláucia soube disto pediu para que ele fugisse da cidade, voltasse para a capital, ou, melhor ainda, fosse para qualquer outro lugar até que as coisas acalmassem. E então, com as coisas mais tranqüilas seu amado poderia voltar. Desta maneira as acusações seriam revistas, ou qualquer coisa que pudesse amenizar a situação do rapaz. Pelo menos não seria preso sem facilmente. Era o que a moça pensava a respeito. Mas ele, íntegro com seus deveres, e pensando que tal ato poderia piorar a própria situação, disse à Gláucia que preferia se entregar se caso fosse preciso. Assim poderiam resolver tudo mais rapidamente. E ele não ficaria conhecido como fujão ou algo semelhante.

A jovem, pelo pouco que conhecia de Gustavo já sabia que estaria pronto para se entregar, como ele mesmo havia dito. Mas tentou, como única esperança, persuadi-lo desta decisão precipitada. Ainda que fosse a mais correta neste caso. Pensava a moça assim, antes de um possível desespero dominar a ambos por completo. Contudo, o jovem médico já estava decidido resolver tudo de uma vez para que sua vida profissional não fosse maculada desta maneira. E o pensamento dele não era de todo o mal, pois os erros seriam descobertos logo, consecutivamente, a sociedade saberia quem era o, ou, os responsáveis pelo que estava acontecendo no hospital.

Mas tal pensamento só daria certo se as autoridades da região fossem integras em seus afazeres, e se não fossem corruptas e podres. Neste caso, a boa vontade de Gustavo poderia ser um grande problema, tanto para o rapaz como para o tio dele que, provavelmente se existisse uma denúncia por parte do acusado, no caso seu próprio sobrinho, teria de tomar drásticas decisões a respeito. Um abafamento deste caso seria o mais provável que acontecesse, ou, como diriam por aí, na linguagem policial: uma queima de arquivo. E sabendo da vontade de Gustavo para decidir tudo de uma vez, o perigo de sua própria morte era, de certa forma, iminente.

Por outro lado, o pensamento irresponsável e precipitado de Gláucia que surgiu sem pensar direito nas conseqüências serviu de aviso para alguma coisa ruim que poderia acontecer. Na verdade ela não queria dizer aquilo, mas se sentia aflita com a notícia, e esta aflição pôs palavras em sua boca. E sem saber de como seria o final desta história ela fez tal sugestão ao rapaz. Talvez alguns estudiosos dissessem para uma ocasião como esta que, palavras ditas assim, sem pensar, nada mais seria que um honesto e puro instinto de preservação.

Certamente que, pelo menos a princípio, que Gustavo não aceitou esta dica insana. Mas à medida que o tempo ia passando para ele, e as coisas pioravam gradativamente, lembrou do conselho inocente e despretensioso da amante, que era o de fugir. Evitou comentar com seus pais a respeito de uma possível fuga, pois eles já estavam doidos, e até arrependidos com esta idéia de terem induzidos nos pensamentos do filho para fazer a tal da residência no interior. Só por que conheciam uma maneira mais curta de fazer com que o rapaz vencesse na vida sem ter de passar pela burocracia normal que todos os recém formados costumam passar.

Claro que esta idéia de ir de fato para o hospital onde havia um familiar como sendo um dos sócios desta instituição, se deu, definitivamente por causa do surgimento de Gláucia na vida do rapaz. Antes disso a tal residência no hospital era apenas um pensamento sem grandes convicções, tanto por parte do jovem formando, quanto de seus pais, pois estes também tinham médicos conhecidos na capital que poderiam ajudá-lo de alguma maneira. Se bem que o tio, um dos sócios da empresa, já fazia questão de levá-lo para fazer com que seu sobrinho se tornasse um profissional da saúde verdadeiramente respeitável no mundo da medicina. Coisa que talvez não conseguisse na capital. Argumento este dito pelo tio aos pais e para o próprio Gustavo.

Como o envolvimento do jovem com a Gláucia estava aumentando sem controle, fato este que até a interesseira e chata de sua quase noiva começava a perceber, os pais dele, digo, a mãe convenceu o marido, que era pai dele, e que este convenceu Gustavo que deveria terminar sua formação médica no hospital do Altair, o tio do rapaz. Sem suspeitarem de que um homem respeitado e de grande responsabilidade estivesse fazendo parte de um caso tão medonho quanto este, mandaram o filho para concluir os estudos a adquirir conhecimento na ciência pela qual se decidiu por estudar.