O Escrevinhador


CORAÇÕES PERTURBADOS

Cap. 8

A situação parecia estar perdendo o controle para o jovem casal. De um lado estava Gustavo, com uma carreira promissora devido ao seu desempenho no hospital, mas por uma certa dose de ironia do destino, correndo sérios riscos de ser preso. Caso este que ninguém sabia como explicar, digo, até sabiam, mas queriam que tudo permanecesse desta maneira. Assim a escusa organização permaneceria inalterada, sem muitos transtornos ou problemas sem soluções. Perfeito para quem planejava um fim triunfal para a máfia. E de outro lado estava Gláucia, uma adorável moça e seu filho que caíram nos encantos de uma pessoa pra lá de complicada. Além de ter um imã natural para encrencas do tipo insolúveis.

Enquanto isso, uma pessoa que trabalhava no hospital desde o início das atividades... clínicas, obviamente, observava tudo no mais completo silêncio e discrição. Doutor Horácio era tido como lunático, porém, como era bom profissional, exímio descobridor e estudioso de patologias do tipo bacteriana e viral, mantinham-no na instituição.

Sempre silencioso, talvez por hábito de trabalhar com seres que vivem calados, circulava pelos corredores livremente como se fosse um fantasma. Dificilmente percebiam a presença desta pessoa por lá. Aliás, ele até se parecia com um fantasma, era branco feito um jaleco, pois não gostava de sol. E além de sol não gostava de pessoas também. Sempre foi difícil o relacionamento com seres da mesma espécie. Entre um convite para festar com colegas de profissão ou ficar em alguma sala de pesquisa, preferia ficar pesquisando. Seja lá o que fosse. Concluindo a descrição, ficava fechado o dia inteiro no hospital. Só saía para ir embora para casa. E quando saía não se despedia de ninguém.

No entanto, apesar de toda esta esquisitice, era a única pessoa que poderia ajudar Gustavo de fato. Mas, como não gostava de se relacionar com humanos, a probabilidade de sua balança pender para lado dos justos seria quase nula. Assim como pender para qualquer lado, pois em qualquer situação, tanto a dos justos quanto dos injustos, lhe causava verdadeira ojeriza. Isto pelo simples fato de não gostar de pessoas. Por outro lado, sua noção de certo e errado era bem definida, e pensava que ninguém, mesmo aqueles de quem não gostava, ou seja, todos, deveria receber um castigo sem merecimento.

Com este pensamento tentou de várias maneiras burlar seu asco que tem das pessoas e contar tudo o que sabia e os motivos daquilo que estava acontecendo a Gustavo. Porém a dificuldade era tamanha que todas as vezes que encontrava o rapaz pelos corredores Dr. Horácio se encolhia nas paredes de tal maneira que parecia até uma sombra que agia por conta própria. E suas maneiras inexpressivas de aproximações junto a outros seres da mesma espécie faziam jus à sua insignificante vontade de fazer amizades.

Por outro lado toda aquela encenação enfadonha de aproximação chamou a atenção de Gustavo que, tomou iniciativa e foi de encontro do doutor. Aquilo foi uma experiência um tanto quanto claustrofóbica para um, e estranha para outro, e ao mesmo tempo curiosa para ambos, pois o rapaz gostaria de saber por que estava acontecendo aquilo tudo. O jovem sabia que o "senhor bactéria", alcunha esta que o velho profissional recebeu há muito tempo no hospital, e era assim que todos dos que lá trabalhavam o conheciam, detestava se relacionar com pessoas. E mesmo não gostando de humanos se esgueirava pelas paredes buscando, sem sucesso, um confronto com um desses espécimes que ele odeia. Já vendo pelo lado de Dr. Horácio, que realmente não gostava de ninguém além daqueles seres diminutos que só se consegue ver através de microscópios, tal aproximação teve o impacto de um choque de 220 volts em uma criança: inesperado, intimidador, terrificante e traumatizante.

Contudo, apesar do tamanho do susto, e mesmo querendo sair às pressas dali, ficou. Porém a falta de tato com os outros impediu de se expressar adequadamente. As palavras saiam de sua boca de maneira trêmula e com pouco sentido, tanto para ele próprio como para Gustavo, ou para quem quer que fosse. Garantiam seus colegas, em particular, claro, que se ele não fosse um ótimo profissional já estaria internado em algum sanatório.

Alguns enfermeiros ainda arriscavam em dizer que o velho Horácio era um sujeito que detinha muitos segredos, e todos eles muito estranhos e perigosos. Coisas foram ditas anos atrás. Coisas que ninguém podia confirmar, e que pessoas foram chegaram a ser demitidas por tentarem se aprofundar em tais assuntos. Mas o boato era que o doutor desenvolvia a cura de muitas doenças. Doenças estas que ele mesmo criava enquanto seus colegas saiam para se divertir.

Quanto a esses boatos dificilmente alguém saberia, mas que a atitude do doutor estava estranha ninguém podia ter dúvidas disto, até mais que o comum, pois ele parecia tentar uma aproximação, e este era o tipo de pensamento que normalmente não teria. Pelo menos enquanto estivesse vivo. Radicalismo à parte, era assim mesmo que gostava de falar. Aliás, era a única coisa que falava para os outros, e fazia questão de deixar bem claro para os todos do hospital quanto ao seu estilo de relacionamento. Sua preferência era se isolar do mundo normal. Como foi dito há pouco; se não fosse um bom profissional já estaria internado em algum sanatório.



CORAÇÕES PERTURBADOS

Cap. 7

Após quase um dia de viagem eles chegaram à cidade na qual Gustavo estava morando. E através do endereço e de um mapa mal traçado feito em um pequeno pedaço de papel que Gláucia mesma desenhou, por intermédio do rapaz logicamente, chegaram ao hospital. Ela e o filho resolveram então verificar como estava a situação local, pois imaginavam fazer uma grande fuga de lá. E não estavam dispostos a pensar nas conseqüências, pois imaginavam que tudo aquilo era alguma armação, e sendo uma armação logo encontrariam o verdadeiro, ou, os verdadeiros culpados de tudo que estava acontecendo.

Instintivamente ela estava certa, mas os tais planos de fuga não eram bem planejados. Portanto não sabiam o que fazer depois que saíssem da cidade. A única certeza que tinham era de sair com Gustavo de toda aquela confusão para algum lugar. Sendo assim fez os cálculos, ou pelo menos simulou situações de horários de consultas que o rapaz estivesse fazendo aos pacientes e resolveu, junto com Jonas, entrar no hospital para tentar encontrá-lo. Mas para que desse certo realmente, seria preciso perguntar à atendente da portaria sobre os médicos que atendiam naquele momento. Precisaria inventar uma boa desculpa para descobrir em que setor seu amante estava atendendo.

Digo que a desculpa precisaria ser boa para encontrá-lo, por que Gustavo, de certa forma, estava sendo vigiado pelos seguranças e funcionários que faziam, também, parte do esquema do qual o rapaz estava envolvido. Então tudo teria de ser feito sem despertar suspeitas, caso contrário as coisas poderiam dar erradas. Gláucia, na verdade, não sabia direito o que estava fazendo ali, naquele local. Estava muito nervosa para pensar nas situações em que havia se envolvido. Situações estas de grande risco. Porém, Jonas, com sua mente aberta e inventiva de criança esperta, e ainda baseando-se em filmes e seriados de aventura que tanto gostava, aliando tudo isso às histórias policiais que lia em alguns livros, criou situações para sua mãe executar. Mesmo sem saber se daria certo.

Mas para crianças as coisas sempre dão certo. Pelo menos nos pensamentos delas. Se bem que a esta altura dos fatos até adultos passam a acreditar nas coisas. Por mais difíceis que pareçam ser. Até por que toda esta ação requeria frieza nos nervos, pois qualquer vacilo emocional poderia por tudo a perder. Então seria preciso acreditar nos instintos e nos pensamentos, por mais malucos que fossem. Principalmente quando a vida da pessoa que se tem amor está em jogo. Assim sendo, não daria para acreditar na frieza de Gláucia por que os nervos dela estavam enfraquecidos de tanta emoção. Contudo, todas as ações já tinham sido estudadas... Por Jonas, claro, e poderiam ser postas em práticas assim que o menino resolvesse, pois Gláucia só tinha uma coisa em mente: sair com Gustavo a todo custo.

De repente Jonas viu uma das portas do corredor onde eles estavam se abrir, e de lá saiu um casal de idosos um pouco abatidos, talvez com o resultado dos exames que um deles tinha feito. Então Gustavo os acompanhou até a porta e deu-lhes um pouco de alento com palavras de incentivo e ânimo, dizendo que seria preciso um pouco de persistência no tratamento do problema. E que se tomasse os medicamentos, respeitando os horários e o prazo correto acabaria tudo bem. Estas palavras soaram como música nos ouvidos do casal, pois até então pareciam preocupados.

Talvez até fosse o caso de preocupação, que a doença merecesse cuidados especiais ou sei lá mais o quê, mas o fato, realmente, era que tanto Jonas quanto Gláucia estavam ocupando suas mentes com coisas mais importantes, como tirar o rapaz daquele lugar o quanto antes, por exemplo. E a deixa para mãe e filho agirem era justamente aquela, tapearam a atendente que ficava no começo do corredor com uma desculpa qualquer e partiram em direção ao jovem médico.

Gustavo ao ver Gláucia e Jonas parecia não acreditar, aquilo parecia tão insólito e ao mesmo tempo tão agradável que ele quase perdeu o controle de suas emoções. A moça que estava pra lá de empolgada com a situação procurou se controlar ao máximo. O momento não era para tais demonstrações de carinho ou qualquer outro sentimento que não fosse o já conhecido que médicos e pacientes costumam usar. Primeiro por que Gustavo tinha uma namorada, ainda que não gostasse o suficiente para contrair matrimônio, e segundo pelo fato de que Gláucia e seu filho estavam imaginando um monte de coisas até sem sentido. Mas para ela tinha algo de errado em toda aquela situação. Ela, por intermédio do filho, suspeitava de todos naquele local. Incluindo aí nesta lista de funcionários os faxineiros, pois como ninguém costuma dar atenção a essas pessoas da limpeza poderia muito bem servir de engodo, e assim tapear as mentes distraídas.

Desconfianças em excesso e loucuras à parte, até que tinha um fundo de verdade nestes pensamentos. Mas sabendo que o rapaz a taxaria de maluca por isto, não demonstrou a real maneira que gostaria de cumprimentá-lo. Contudo, a moça da recepção percebeu algo de diferente entre eles e foi averiguar, pois ainda continuavam pelo lado de fora da porta. Gustavo estranhou a atitude da recepcionista por ter ido até eles perguntar por que o médico não estava atendendo os dois ali no lado de fora do consultório, e sendo que eles não tinham horário marcado para uma consulta.

Indignado com a situação respondeu de maneira até um pouco ríspida a esta pergunta descabida dizendo ele estava apenas sanando as dúvidas que a mãe estava tendo sobre o mal-estar de seu filho. Apesar de parecer grosseiro foi a única forma que encontrou para poder conversar mais tranqüilamente com Gláucia. Mas assim mesmo não poderia conversar muito mais tranqüilo do que já estava, pois quase todos daquele lugar o estavam vigiando. Inconscientemente tanto o rapaz quanto a jovem conseguia perceber a sensação de que a maioria dos que pelos corredores circulavam mantinham suas atenções voltadas para o quase profissional da saúde. Quase profissional por que ainda não possuía o título definitivo de médico.